Acho que você deve estar enjoado de ouvir falar desta ruiva. Lauren, a moça que queria um laptop com tela de 17 polegadas, conseguiu, com poucas palavras, dar um chute nos testículos (metafóricos) de todo Mac user:
— Eu não sou cool o bastante para ser usuária de Mac.
Ai. Paus e pedras quebram meus ossos, mas isso… isso destrói meus sentimentos! Apesar de tudo, eu acho que esse filme de um minuto foi uma das peças anti-Mac mais brilhantes já feitas, pois ela acerta em cheio coisas incômodas nas quais não costumamos pensar (não estou falando mais de gônadas, ok?).
Você topa uma discussão em terreno neutro? Então vamos lá! :-D
A primeira coisa que vem à mente é “Ela é só uma atriz, aquilo não passou de encenação!” Isso é verdade e mentira, tudo ao mesmo tempo. Acabaram descobrindo na Associated Press que, de fato, a Lauren é uma atriz, mas ela também é uma gerente… que respondeu a um anúncio na Craigslist, onde foi selecionada para participar de uma pesquisa de mercado.
Quem recusaria essa proposta? “Estamos pesquisando tomada de decisão na compra de computadores e, se você encontrar um laptop que se enquadre no seu desejo e custe menos de US$1 mil, nós o pagamos e você fica com a diferença, se ele custar menos.” Oh, eu aceitaria! E se dissessem, ao final do processo, que não era uma pesquisa, mas um “comercial real” da Microsoft, eu nem questionaria, se estivesse no lugar dela — aparecer na TV, ser uma atriz… faz sentido, não? Não é à toa que dizem que ela “gritou, pulou, berrou e vibrou” ao saber disso.
Zero a zero, nunca saberemos com certeza o quanto de armação houve nas atitudes da Lauren.
Quem disser que Macs são acessíveis a toda a população está sob efeito de drogas ou mentindo deliberadamente. Macs são caros, ponto final. A razão é óbvia: pegue hardware de qualidade (ou não…), rodando software que é feito para funcionar de forma simples e eficaz e coloque dentro de uma carcaça assinada por um time de designers chefiado por um cara super-mega-ultra-puxa-competente (ou dois). Duh, lógico que um computador desses não vai custar 15x de R$99,90 num supermercado!

"Eu _não_ trabalho de graça, viu?"
Se você vive com o orçamento limitado, Macs não são uma boa ideia — podem ser, por sinal, uma péssima ideia, pois eventualmente vão precisar de um ou outro ajuste e, cara, isso não vai sair barato! Comprar um AppleCare pode ser essencial, mas isso é adicionar sal à ferida.
Nisso, a propaganda com a Lauren acertou no alvo. Macs são caros, muito caros! Não tem argumento no mundo que desfaça isso… Tecnicamente, ao dizer “Eu não sou cool o bastante”, ela estava dizendo “Eu não sou rica o bastante”. Infelizmente não dá pra discordar: quatro quintos da população mundial não podem nem sonhar com um Mac da mesma forma que 99% não podem nem imaginar o que seria dirigir uma Ferrari. Oras, se pra lá da metade das pessoas neste planeta não tem nem o que comer… :-(
Some a isso a crise pela qual estamos passando e será possível ver o quanto a maior parte dos consumidores vai se identificar com a ruiva de cachecol verde e enxergar os preços do hardware com uma maçã no verso como uma espécie de cláusula segregadora. “Somos bons demais para você”, é o que uma loja da Apple parece dizer para quem vive com menos de cinco salários mínimos por mês. E a Crispin Porter + Bogusky avançou sobre isso como um leão na garganta de uma zebra, perigosamente atingindo a jugular — reduzindo um computador à etiqueta do preço.
1 a zero, gritando “PREÇO!” desesperadamente.
Mesmo assim, qual foi o primeiro lugar aonde a Lauren foi? Apple Retail Store. Mesmo que não tenha levado um Mac, acho que ela deixou claro que _queria_ um Mac. Mas veja o filme de novo e me diga se tem algo errado…

Você percebeu algo de estranho? O pessoal do 9 to 5 Mac encontrou algo fascinante: sabe o careca de jaqueta marrom, aos 13 segundos? Notou como ele apareceu num movimento contínuo, enquanto a Lauren entra e sai da loja?

Falha na Matrix…
Duas explicações plausíveis para isso:
De toda forma, uma mensagem é evidente: pensando em um computador novo? Get a Mac. E tenho certeza de que, não fosse alguma cláusula que impuseram à Lauren (“você disse _17_ polegadas, honey“), era capaz de ela ter ficado com o MacBook de US$999… ou não, já que, com impostos, ele custa mais que isso.
[Aliás, esses preços que aparecem nos anúncios são pura ilusão: lá nos Estados Unidos você paga impostos na boca do caixa, então é sempre bom levar dinheiro sobrando — pelo menos 15%, por via das dúvidas.]
1 a 1, por conta do homem de jaqueta marrom e da ida intempestiva à loja da Apple.
Uma GPU potente é bem-vinda sempre, mas a pergunta é: você precisa de uma para preparar relatórios de trabalho? Ou uma monografia? Ou a apresentação de uma tese de doutorado? Quais atividades essenciais no dia-a-dia precisam de todo o floreio que o Mac OS X oferece?
Falemos a verdade: uma boa parte das pessoas tem mais do que precisa/usa. Experimento simples: pergunte a alguém “Seu celular tem Bluetooth?” e 70% das vezes é capaz de você ouvir “O que é isso?” como resposta — e, ironicamente, na maioria das vezes o aparelho terá tal recurso. O chip deve ficar solitário, dentro do aparelho…
O HP que a Lauren comprou ganhou é uma porcaria. Verdade, os números não mentem. Mas eu não acho que ela queira o laptop para criar animação 3D ou editar filmes. Aliás, você que tem um Mac, quando foi a última vez que fez um filme no iMovie? Ou quando usou a iSight pela última vez? A Lauren pode ter levado um equipamento de musculação pra casa, mas vai ver ele era exatamente o computador de que ela precisava — editor de textos, tela grande pra ver seriados enquanto janta, peça única que não vai incomodar com fiação, nobreak incluso.
2 a 1, pois é importante saber até onde vai sua necessidade por um produto, Campo de Distorção da Realidade® à parte.
O simples fato de eu estar falando do diabo do filme já prova um pouco disso. How do you like them apples? Todo mundo está comentando e, ao contrário dos filmes com o Seinfeld, tem quem esteja falando bem desta campanha!
Na Fox News, Clayton Morris dedicou quase nove minutos de programação (um minuto só pra repetir o bendito anúncio… de graça, será?!) para comentar a campanha. Cara, isso foi o resultado de uma bruta jogada de mestre! Eles próprios admitem: “Estamos ajudando a Microsoft, falando disso.” Veja abaixo a discussão completa — que é ótima, por sinal, com a participação do Joshua Topolsky, do Engadget, e Anthony Casalena, do SquareSpace (em inglês, sem legendas):
3 a 1, por conseguir tanta promoção gratuita.
O jogo foi da Microsoft! Com um anúncio sensível à catástrofe financeira do mundo, mostrando que “o Windows é amigo do seu bolso”, eu acho muito pouco provável que o consumidor médio sinta-se atraído pela plataforma Mac da mesma forma depois de ver esta peça. Pior ainda: com a fala “Eu não sou cool o bastante”, reforça-se o estigma do “usuário de Mac pedante” a ponto de tornar a Maçã maligna — uma espécie de country club segregador que trata as pessoas de fora como lixo*.
Lógico, se você puder comprar um Mac, não há o que se pensar: vale cada centavo. É um computador gostoso de usar, com ótimos programas para fazer de um tudo (se não vem de fábrica, tem como comprar a preços razoáveis ou achar freeware), Macs têm um ciclo de obsolescência mais gentil, o Leopard é maravilhoso (e espero que o Snow seja melhor ainda), usar os recursos embutidos nele é uma delícia…
Mas e quem só precisa digitar relatórios ou planilhas? Muitas pessoas não têm como arcar com o investimento inicial de um Mac. Comprar um PC e instalar o OpenOffice — que eu recomendo, usei-o um bocado, antes de comprar o iWork ’09 — é, talvez, a única alternativa para muitas pessoas. Foi assim pra mim por um bom tempo e funcionou muito bem, obrigado, dentro de um orçamento arrochado!
. . .
Resultado: Microsoft WIN, por trazer o preço final puro e simples para o destaque em meio a uma crise e ainda conseguir ferir esbofetear a imagem de todos os usuários de Mac. Golpe baixo, mas engenhoso.
And that, as they say, is that.
(*) Ironicamente, por ser mais amigável ao usuário, o Mac OS X faz o Windows parecer segregador — algumas tarefas no sistema da Microsoft gritam “Você é burro!”, por serem cheias de linguagem técnica e arquivos de ajuda incompreensíveis para o usuário comum.
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