Continuação de “Definindo o SOOS“, que é parte da série sobre o “Sistema Operacional do Século XXI“.
Era uma vez um terminal. Ele só tinha um teclado e um monitor monocromático. Todo mundo chamava ele de “burro”. Coitado, sem uma conexão direta com o computador central, ele não conseguia fazer nada. Nem um 2+2. Não era “burro” — era acéfalo mesmo. Aí apareceram seus primos ricos que ficaram conhecidos como PCs - computadores pessoais. Dotados de CPU e memória, nasceram autônomos. Quando começaram a ligá-los em torno de computadores centrais, praticamente decretaram a extinção dos pobres terminais. A única satisfação que restou aos “bobinhos” foi ver a longevidade de seus irmãos que, apesar de igualmente “burros”, estão em todo lugar até hoje: os aparelhos de televisão. Há mais de uma década fala-se de uma geração inteligente - a TV Digital - mas a “burrice” persiste. (Parafraseando / Plagiando Nicholas Negroponte: “e olha que não estou falando da programação das TVs, ok?”).
Quando falamos de *conexão*, a visão que impera até hoje é identificada por duas palavras e um sinal: “Cliente / Servidor”. Nossos terminais, PCs e TVs são “clientes”. Grandes computadores e emissoras de TV são “servidores”. A parte minúscula e ignorada na definição, a barrinha “/”, é a rede: a Conexão entre clientes e servidores. Como eu já escrevi em outro ponto desta série, tudo mudou. Mas a visão “cliente / servidor” segue aí. Qual o problema com ela e o que isso tem a ver com o SOOS?
Os papéis de “cliente” e “servidor” estão deixando de ser uma posição, um “cargo vitalício”. O que determinará quando um dispositivo está servindo ou sendo servido é a transação em si. Um iPod, por exemplo, pode ser o “servidor” de músicas em uma casa ou escritório. Em outro momento ele pode ser servido por um micro, para ser devidamente “reabastecido”.
Colocando de outra forma: a inteligência não estará mais centralizada. Marvin Minsky (em “The Society of Mind”, de 1987), diz que “a inteligência não estará num processador central, mas no comportamento coletivo de um grande grupo de máquinas de usos mais específicos e altamente interconectadas”. É por isso que a visão de um SO que funcione como um “Media Center” é de sucesso bastante duvidoso. Home theather, micro, DVD, iPod, videogame, cafeteira e nossa aguardada TV inteligente (e digital) não precisarão de um controle central. Demandarão, isso sim, uma “alta interconexão”.
Como eu escrevi no artigo anterior, não é necessário que exista um único SO (um mega-monopólio) para todos os aparelhos inteligentes. O que importa é que eles compartilhem uma série de características essenciais mínimas. Creio que isso só será possível com a adoção de padrões abertos. Mas isso é outro assunto (veja nota no final do artigo).
Os padrões e protocolos de comunicação que existem atualmente já são suficientes para atender essa nova visão. A questão está mesmo em nossos SOs, em sua passividade e uma certa “burrice” (os terminais riram agora, babando veneno).
Viver em Sociedade
Quando falamos em serviços de Conexão do SOOS, queremos tratar de sua capacidade de viver em sociedade. Ele saberá identificar potenciais clientes e servidores, pares e semelhantes, amigos e inimigos. Lembrem-se que um componente (serviço) deste anel é exatamente a Segurança. O SOOS saberá evitar maus elementos e indivíduos que, desprovidos do SOOS, vivem doentes (infectados por vírus e semelhantes). Soou meio facista mas, no mundo das máquinas, a coisa será assim mesmo. Questão de sobrevivência. Lembram-se que no artigo anterior eu falei que o SOOS “defende a sua existência”?
Novos dispositivos e novos protocolos continuarão surgindo. Quando um cara novo aparecer, como por exemplo o barman D2C (equipamento especialista em caipirinhas - dose dupla!), falando uma nova língua, ele instruirá os outros equipamentos de seu meio (micro, geladeira e afins) onde buscar o serviço que “ensina” aquela nova língua. O SOOS buscará aquele novo serviço e começará a falar instantaneamente com o querido barman: “Capitão, manda mais zuma caipira caprichada!”. Ok, é quase a mesma maneira como o Neo (Matrix) aprendeu Jiu-Jitsu. Só que o SOOS não precisará de disquetes ou cartuchos, né? Ele simplesmente pega o serviço na rede. Pronto.
Tudo no SOOS estará conectado com o mundo externo. Mesmo aqueles serviços de “auto-gestão”, que descrevi no capítulo anterior, dependerão da Conexão. É como se todo dispositivo possuísse um irmão gêmeo virtual, um ‘avatar’. O primeiro benefício óbvio é o backup - uma cópia de segurança. Se você trocar seu micro, por exemplo, não precisará ensinar tudo de novo para ele. E o aprendizado adquirido por um dispositivo estará disponível para todos os demais. Por “aprendizado” entenda não só aquela parte de “conhecimento do dono”, um serviço do primeiro anel, mas também todos os Serviços que o SOOS “aprendeu” durante sua vida em um determinado dispositivo.
Este conceito valerá tanto para funcionalidades (serviços) quanto para dados e informações. Se você comprar um editor de textos, por exemplo, ele estará disponível em seu micro mas também na sua TV. Não sei porque você utilizaria um editor de textos em uma TV, talvez para compor um email ou uma mensagem SMS (argh!) que você quer mandar para aquele apresentador ‘bacana’. Você também pode adquirir uma música ou um filme. Aqui o exemplo faz mais sentido. Aquela música estará disponível para todos os seus dispositivos que saibam tocar músicas. Engraçado é que quem desenhou algumas implementações do quase-finado DRM tentava evitar exatametne isso: que você pudesse escutar sua música onde fosse mais conveniente e confortável. Não importa (mais). O fato é que você não precisará se preocupar em fazer cópias e mais cópias. Sua música (ou filme, livro, serviço) estará disponível em qualquer dispositivo. Instantaneamente.
Online X Offline
Boa parte dos debates que rolaram desde o início desta série girou em torno do duelo “online X offline”. Como eu escrevi acima, o SOOS estará conectado 24×7x365 (24horas por dia, 7 dias por semana, o ano todo). Ou seja, ele será naturalmente online. Chegará o dia em que não falaremos mais tanto da tal Internet, assim como hoje não falamos da energia elétrica. Nossos filhos ou netos não darão tanta importância para ela porque ela será uma coisa natural, que “sempre esteve aí”. E a ubiqüidade da rede, sua presença em tudo (do boné ao Porshe, do serviço público ao menor servicinho privado), a torna invisível. O SO do século XXI verá a Internet da mesma forma: como uma coisa natural. Lembrará sorrindo do tempo em que seus vovôs faziam conexões “dial-up”.
Mas isso não significa que todos os usos que faremos de nossos dispositivos ocorrerão obrigatoriamente online. Como eu disse em uma das discussões, é uma questão de conveniência e conforto. Dados e informações serão filtrados e depositados em nossos dispositivos. Alguns serão temporários, outros com prazo de validade indeterminado (como as músicas, por exemplo). Com os serviços deve ocorrer a mesma coisa. Aquele “agente” que ajudará a fazer a declaração do imposto de renda não precisa ocupar espaço durante todo o ano. Até porque ele muda todo ano. Já os serviços de edição de textos e planilhas eletrônicas podem residir indefinidamente em nossos discos.
Acho que chegou a hora de falar um pouco mais sobre Orientação a Serviços, o OS ou SO do SOOS (sigla chique fica inalterada em inglês ou português, hehe). Como esse artigo já ficou longo pra chuchu, e já são 19hs de uma SEXta-feira… fica para a próxima.
Sobre Padrões (Sistemas) Abertos
Vou surrupiar o penúltimo parágrafo da página 47 de “A Vida Digital”, único livro publicado pelo Nicholas Negroponte. Literatura obrigatória se você gosta da vida no século XXI. O livro é de 95. Vamos lá:
O conceitos dos ’sistemas abertos’ é vital, um conceito que exercita a porção empreendedora de nossa economia e desafia tanto os sistemas proprietários quanto os monopólios mais amplamente regulamentados. E ele está ganhando. Num sistema aberto, competimos com nossa própria imaginação, e não contra uma chave e uma fechadura. O resultado não é apenas um maior número de companhias bem-sucedidas, mas também uma gama maior de alternativas para o consumidor e um setor comercial cada vez mais ágil, capaz de rápidas mudanças e de um veloz crescimento. Um sistema aberto de verdade é de domínio público, está totalmente disponível na condição de uma fundação sobre a qual todos podem construir.
Haverá um MacSOOS, WinSOOS, SOOSix etc. Mas todos serão construídos sobre uma base totalmente aberta e livre. Dada a amplitude e relativa complexidade do SOOS, não vejo ele acontecendo de outra forma que não seja como um Sistema Aberto.
“Competimos com nossa própria imaginação”. Onde ocorrerão as diferenciações? Em que campo se dará a concorrência no SOOS? Ou, colocando de outra maneira, onde estará a grana no SOOS? O próximo artigo responderá.




André Sugai
06/01/2007 às 00:32
É Paulo, quando voçê falou desse SOOS e toda sua funcionalidade online, eu pensei nisso, se no caso meu sistema é on line, ainda existiria essa guerra windows vs mac os?? porque no caso seria tudo uma questao de hardware não?? e como é on line como uma empresa poderia ganhar dinheiro com seus sistemas?? e as atualizações??? acho que nessa parte o Linux tem um passo a frente não?? ele é aberto e existem milhares de desenvolvedores que trabalham para deixá-lo cada vez melhor… desculpa se viajei na maionese hahahah
Usando oEduardo Marques
07/01/2007 às 13:02
Muito legal o artigo. Espero o próximo capítulo para entender melhor como as empresas ganharão dinheiro com isso. Porque uma coisa é certa. Se elas não ganharem dinheiro, uma coisa dessas nunca se tornaria real.
Usando oPaulo Vasconcellos
08/01/2007 às 10:39
Oi André,
viajou muito não, hehe. Mas, como eu disse no artigo, podemos sim ter um MacSOOS ou WinSOOS. Só que eles terão um padrão em suas fundações. A briga se dará em outro nível. SO é commodity!
E aí entra a resposta ao caro Eduardo: a grana estará nos SERVIÇOS! Não tem mistério. Mas no próximo capítulo a gente conversa mais sobre, ok?
[]’s
Usando oEduardo Marques
08/01/2007 às 10:57
Beleza Paulo. Parabéns pelo post!
Usando oPaulo Vasconcellos
08/01/2007 às 11:02
Grato.
Deixa eu aproveitar a deixa e colocar aqui uma dica repassada pelo Nelson:
http://g1.globo.com/Noticias/C.....21,00.html
Coluna do Meira no G1. Ele tb tá falando sobre “sistemas operacionais como serviço”. Meio distante da minha idéia, mas vale para fomentar o debate.
Usando oPaulo Vasconcellos
08/01/2007 às 16:19
Agora duas dicas do LFBraga, arquiteto dos bons que não concorda com o termo “SO”. Vou transcrever o comentário que ele deixou no Graffiti:
“Olá PV. Acho que essa “coisa” não deveria ser chamada de SO. Afinal de SO nós já estamos bem abastecidos e é bom que eles tenham responsabilidades limitadas (hardware, memória e etc). Mas achei interessante a sua visão e acho que você esta “procurando” um novo protocolo de altíssimo nível ou uma nova arquitetura para aplicações distribuídas. Penso nisso como uma versão 2.0 (arghh) de uma camada construída sobre qualquer SO que seja um combinado do Jini, P2P e etc.
Um abraço. Braga.
Referências - http://wiki.apache.org/incubator/RiverProposal
http://en.wikipedia.org/wiki/U.....g_and_Play“”
Taí. Tks Braga!
Usando oNelson Biagio Junior
08/01/2007 às 20:42
Lá vamos nós, Paulo:
De certo modo, concordo com o Silvio Meira:
O que faz todo o sentido do mundo: software não é e nunca vai ser simples. Para que a maior quantidade de pessoas venha a poder usá-lo, é bom que esteja fora do alcance, pelo menos do ponto de vista de instalação, licenças, fontes e tudo o mais. Porque o que importa, no fundo, é o que o usuário faz com ele, e não o que ele é. Isso está começando a acontecer agora, e vai ganhar uma velocidade muito grande nos próximos anos…
Continuo assinando embaixo e reafirmo que, num futuro não muito distante, a “briga” entre software fechado e aberto será vencida por software como serviço, deixando os dois a ver navios.
Como já disse, a grande tônica deste século XXI se dará baseada em dois princípios: conectividade e convergência. De certo modo, o SOOS terá como uma de suas características elevar tais conceitos à sua máxima potência, não acha?!
Quanto ao hardware em si, penso — como também já advoguei anteriormente — que à medida que o SOOS avance, assistiremos ao downsiezing da capacidade de processamento e armazenamento dos computadores dedicados, visto que boa parte destas tarefas se dará em um ambiente computacional distribuído. Aliás, como quase tudo será dotado de capacidade de processamento (da cafeteira à ducha de hidromassagem…), acredito que os computadores dedicados, como os conhecemos hoje, tenderão à extinção…
Prometo que voltarei ao assunto com mais afinco e de maneira menos suscinta, assim que esta horrorosa fase de treinamentos que estou ministrando (e que me toma quase todo o tempo) terminar.
Cordiais amplexos
Usando oPaulo Vasconcellos
08/01/2007 às 21:10
Grande Nelson, vamos lá.
Software como Serviço (SaaS) é um dos “inspiradores” do que chamo aqui de SOOS. Mas eles, no meu ponto de vista, nunca eliminarão a necessidade de um Sistema Operacional. Na verdade eles dependerão de um sistema com o jeitão e o conceito do SOOS. Veremos sim muito software deixando de existir encaixotado, mas não todos. Achei o Meira um tanto radical nesta conclusão.
Exatamente: Conectividade e Convergência são as duas grandes palavras. Agora vamos entender bem a tal convergência: não se trata de lotar pequenos aparelhos com uma porrada de funcionalidades. Trata-se, isso sim, de redistribuir melhor as responsabilidades. A tal da “inteligência do conjunto” que citei no artigo.
Sua conclusão sobre o hardware é o oposto do que o Bill Gates apresentou na CES hoje (ou ontem, sei lá). O Windows Home Server será um baita upgrade, se considerarmos o padrão médio dos micros que temos em nossas casas. E aí?
Como disse no artigo, não acredito em centralizadores. Essa visão de um grande servidor - em casa! - me parece muito estranha. E, de certa forma, ultrapassada. Mas acho que sempre teremos um micrinho em casa. Extinção não. Mas sua forma deve mudar bastante na próxima década.
Por outro lado, tudo que o Bill anunciou na CES tava de alguma maneira escrito aqui, hehe. Será que ele lê o Blog.MacMagazine? hehehe…
Todos aparelhos “conversando” com todos e por aí vai. Só que a gente tem que lembrar que há pouquíssimo tempo ele conseguiu lançar um Zune que não era compatível com o Vista. Existem vários Windows, e eles não compartilham nem mesmo alguns princípios. O Windows não é o SOOS, apesar da grande vontade.
Abraços,
Paulo
Usando o