‘Darwin no caixa eletrônico’


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08/12/2006 às 12:57

08-darwin.jpgHoje passei a maior parte da manhã em uma reunião aqui no meu trabalho e, a certa altura, acabei me lembrando de um antigo texto de Bernardo Carvalho, chamado “Darwin no caixa eletrônico“. A íntegra do mesmo segue abaixo:

Eu aprendi a acreditar, durante o curso da minha vida, que em boca fechada não entra mosca, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, quem fala muito dá bom dia à cavalo e {insira seu ditado favorito sobre a importância do silêncio aqui}. Imagino que o principal motivo para isso seja o meu background cultural/antropológico/genético nas Minas Gerais, onde a tradição reza que “aquele que fala primeiro leva tinta/paga a conta/lava a louça/é eleito síndico”.

O motivo número dois é uma predisposição a ter opiniões controversas pelas quais eu sinto um certo orgulho mórbido e infantil, e como todas as coisas das quais voce se orgulha mórbida e infantilmente, elas tendem a propalar-se aos quatro cantos. Logo, depois de levar muita tinta, pagar várias contas, lavar pias e mais pias de louça e ser eleito síndico de prédio atrás de prédio, descobri que seria bom fechar a matraca e guardar minhas convicções para mim mesmo.

(Regra que eu NÃO sigo neste blog, a propósito.)

Uma das teorias que eu tenho é sobre como a sociedade humana, ao evoluir, perdeu um dos componentes essenciais de uma comunidade ecologicamente bem-ajustada: a Seleção Natural — assim, em letras maiúsculas, aquela que nos ensinou o tio Darwin.

A Seleção Natural é simples: ela nivela por cima. Quem ultrapassa um certo limiar, tem menos chance de terminar no estômago de um predador e, por conseqüência, uma possibilidade maior de passar sua carga genética adiante e gerar bebezinhos que a provavelmente também vão ultrapassar a média com facilidade. Quem não ultrapassa, tem uma bela probabilidade de virar o almoço de alguém antes que tenha a oportunidade de fazer seus próprios bebezinhos. A cada geração os limiares vão aumentando, porque os predadores também são obrigados a passar pelo mesmo processo, e o sistema evoluiu lenta e constantemente.

Só que, claro, a Seleção Natural é para animais. É um processo inclemente e acontece sem direito a choro, vela, tapetão ou repescagem. Quando você tem uma matilha de lobos bufando no seu cangote gritando “perdeu playboy” não dá para negociar. É entregar pra Deus e torcer para morrer rápido.

Portanto, nós humanos negamos o processo e protegemos aqueles que nitidamente estão abaixo do limiar. A sociedade ocidental tenta balizar-se por modelos ideais de inclusão, tolerância e respeito e todos são bem-vindos. Só que tem horas que você deseja que o contrário aconteça. Só um pouquinho.

Veja bem: não estou falando que eu sou o fodão-que-se-garante e tal. Míope e padecendo de um sério caso de déficit de atenção, dentro de estritas regras darwinistas, eu sou totalmente unfit. Na savana, o gnu míope com déficit de atenção vira janta.

Mas voltando ao assunto. Ontem eu estive no Santos-Dumont. O aeroporto. Saindo, descobri-me sem nem um tostão. Lembro-me então de um caixa do Itaú dentro do terminal e vou até lá, só para encontrar uma cena dantesca. Uma senhora de seus trinta e tantos, dando um chilique em um daqueles telefones que ficam pregados no caixa. “A máquina engoliu meu cartão, a máquina engoliu meu cartão, meu dinheiro, o que eu vou fazer agora”, berrava ela repetidamente, não dando a impressão de que havia alguém do outro lado porque o throughput verbal indicava claramente um monólogo. Intercalava e pontuava as frases com tapaços e “who’s your daddy” no pobre caixa automático. Eu, como tenho nojo de barracos, vazei pensando “foda-se, tiro dinheiro em outro lugar”.

No caminho para o carro, depois de andar quase cem metros, um dilema: meu carro está parado no estacionamento. Eu tenho que pagá-lo. Não tenho dinheiro. A única solução é voltar novamente ao caixa e torcer para o barraco ter se dissipado. Voltando pelo estacionamento em direção ao terminal fiquei pensando nas alegações da mulher: “essa máquina engoliu meu cartão”. Veja bem, a maquina do Itaú não tem como engolir seu cartão. Durante o uso, em nenhum momento ela prende o cartão. Ele sequer entra na máquina. Ela pede que você enfie o cartão no slot e retire rapidamente, e ele fica com você. A máquina não retém o cartão nem por um segundo. O use case “máquina prende cartão do usuário” simplesmente não existe e não foi previsto porque é uma impossibilidade técnica.

Ai a ficha caiu: “Essa mulher enfiou o cartão em alguma outra ranhura da máquina e ele caiu lá dentro”. Incrível. Fiz um pequeno mapa mental da máquina do Itaú. Slot de cartão posicionado no canto superior direito, quase na altura dos olhos, ao lado da tela, um lugar nobre, indicado “Insira seu cartão” or something. Abertura por onde efetuar depósitos posicionada no canto inferior esquerdo, abaixo da linha da cintura, próxima ao respectivos envelopes e devidamente demarcada “Insira aqui o envelope de depósito”.

Foi nesse momento que senti que alguém me acompanhava. Olhei para o lado e um simpático senhor de barbas longas caminhava junto de mim, em meio ao caos dos táxis em frente ao passeio do Santos-Dumont. Envergava um elegantíssimo terno de tweed, coisa cara, e levava pela coleira um pequeno cachorro.

– Olá Bernardo, que prazer encontrá-lo em uma noite tão maravilhosa.
– Desculpa, mas quem é o senhor?
– Meu Deus, onde estão meus modos. Eu sou Charles Darwin, naturalista, botânico e biólogo a serviço de Sua Majestade. E este é o Beagle.
– Au.
– …
– Não fique em silêncio, young man. Qual o problema?
– Desculpa?
– Por que você me chamou aqui?
– Não, você se enganou, eu…
– Foi a mulher do caixa eletrônico não foi? – Coça a barba e olha para cima, como se buscasse algo do fundo da memória – Ah sim, eu posso ver, oh por Júpiter, a mulher realmente enfiou o cartão no slot dos envelopes de depósito como você deduziu. E você tem razão.
– Sério?
– Incrível, ela está sozinha numa cidade estranha, sem dinheiro e enfia o cartão do banco no buraco errado. Tsc, tsc. E você tem razão.
– Desculpa, você já disse isso.
– Não, você tem razão sobre a outra coisa.
– Qual coisa?
– Na natureza, quando você enfia o seu cartão de banco no buraco onde está escrito claramente “Envelopes de Depósito”, nessa hora você é comido pelos predadores.

Ele parou de andar. Estávamos no saguão central do terminal, a alguns metros do caixa eletrônico. Pousou a mão novamente em meu ombro e o cachorro deitou no piso de mármore.

Eu imaginei que por agora o barraco estaria terminado, mas claro que não. Aumentou. Agora haviam quatro ou cinco populares cercando a máquina, a dona dando um chilique sozinha, um homem segurando o telefone com uma cara desolada, esperando por algum atendente insatisfeito com seu emprego, de plantão num domingo à noite. Os outros comentavam entre si sobre casos semelhantes: “ah, uma vez lá em Macaé a máquina também engoliu meu cartão” “não diga” “que horror”.

O velho me puxou para mais perto e continuou:

– E quando isso acontece na natureza, meu caro Bernardo… quando você enfia seu cartão de banco no buraco errado e outros cinco param para ver o que está acontecendo, assistir à cena e matar o tempo, sabe qual é o nome que dão a isso?
– Não…
– Um banquete.

Foi aí que surgiram os quatro tigres. Passaram correndo pela porta por onde tínhamos acabado de entrar e seguiram naquele galope felino até o saguão central. Você leu direito: tigres de bengala, mamíferos carnívoros com presas e garras, em pleno Santos-Dumont. As pessoas ao redor do caixa eletrônico gritaram desesperadas, mas era tarde. As feras pularam sobre elas e sangue esguichou por todos os lados. Fiquei paralisado ali com vontade de vomitar – quando fazia menção fugir era preso ao chão pela mão firme do cientista em meu cangote. Não tinha alternativa a não ser assistir ao pequeno grupo ser desmembrado em meio a rugidos e gritos de desespero e patinando em uma piscina de sangue que se formava no chão. O cachorro, ainda deitado, assistia à cena com um ar de tédio.

Charles Darwin acompanhava o festim com um ar de satisfação e uma ponta de algo que parecia nostalgia. Suspirava, às vezes. Olhou para mim e disse:

– Às vezes eu penso se a natureza não deveria sempre simplesmente seguir seu curso.
– Erm… ahn… Deus do céu!
– Sob um determinado ponto de vista, a Seleção Natural é um processo mais humano, sabe?
– Mas elas… oh, não, que HORROR!
– Com um pouco de sorte, essas pessoas ainda não procriaram – e toda violência não foi em vão.
– E… meu Deus, alguém, faça alguma coisa…
– Só que não é este o caso, certo? Vivemos sob outras regras.
– Sim, mas… mas…

Agora os tigres banqueteavam-se dos corpos espalhados. Exceto pelo barulho de mastigação e o ocasional rugido de satisfação, o silêncio era absoluto. Nesse momento eu já havia coberto meus olhos e assistia à cena pelas frestas entre os dedos.

– Ah, é uma pena – suspirou novamente o cientista.

Fez um floreio com a mão e os tigres desapareceram e a cena voltou ao ponto onde estava antes. Lá estava a mulher dando seu chilique. Lá estava o pobre diabo com cara de desalento ao telefone. Lá estavam os outros matando o tempo e conversando fiado. Não havia mais sangue.

– Deixo essa para você.

Deu um tapinha em minhas costas e saiu, levando seu cachorro. O berreiro da mulher estava mais alto. Agora ela chutava a máquina e nenhum dos populares parecia repreendê-la, ao contrário.

Fui tomado por uma absurda saudade dos tigres.

– Oi! Senhor! Mr. Darwin!

Ele olhou para trás:

– Desculpe-me, rapaz, mas tenho uma avião para pegar.
– Au.

E sumiram entre filas de passageiros e carrinhos de bagagem.

Com um suspiro, andei em direção ao grupinho. Pedi licença e perguntei qual o problema. A mulher, em altos brados, bateu várias vezes no slot de envelopes de depósito gritando, pela bilionésima vez, que a máquina tinha engolido seu cartão. Eu disse:

– Minha senhora, esse buraco não é para cartões. Esse buraco é para envelopes. A senhora enfiou o cartão no buraco errado. Vai até aquele guichê de informações ali e descobre como entrar em contato com o pessoal do Itaú, porque alguém vai ter que abrir essa máquina e tirar o cartão da senhora de dentro do container de depósitos.
– MAS ISSO NÃO É PROBLEMA MEU! A MÁQUINA ENGOLIU MEU CART…
– Se a senhora me der licença, eu gostaria de sacar dinheiro.
– AH MAS…

E ficou parada ali me vendo enfiar o cartão no slot correto. Na tela de entrada da senha eu olhei para ela parada ali do meu lado.

– Então? Você ainda não foi?

Ela girou nos calcanhares e saiu batendo os pés até o guichê de informações onde certamente ia fazer a vida de alguém mais miserável naquele domingo à noite. Malditos tigres. Ou benditos tigres, não sei. Olhei para o outro lado e o grupelho que estava torcendo pela mulher já havia desaparecido há muito. O telefone pendia pelo fio, ainda balançando.

Saquei meus vinte reais e caí fora. Com um idéia fixa de iniciar uma pequena criação de tigres.

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