SOOS: Conexão


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05/01/2007 às 19:30

Continuação de “Definindo o SOOS“, que é parte da série sobre o “Sistema Operacional do Século XXI“.

Era uma vez um terminal. Ele só tinha um teclado e um monitor monocromático. Todo mundo chamava ele de “burro”. Coitado, sem uma conexão direta com o computador central, ele não conseguia fazer nada. Nem um 2+2. Não era “burro” — era acéfalo mesmo. Aí apareceram seus primos ricos que ficaram conhecidos como PCs – computadores pessoais. Dotados de CPU e memória, nasceram autônomos. Quando começaram a ligá-los em torno de computadores centrais, praticamente decretaram a extinção dos pobres terminais. A única satisfação que restou aos “bobinhos” foi ver a longevidade de seus irmãos que, apesar de igualmente “burros”, estão em todo lugar até hoje: os aparelhos de televisão. Há mais de uma década fala-se de uma geração inteligente – a TV Digital – mas a “burrice” persiste. (Parafraseando / Plagiando Nicholas Negroponte: “e olha que não estou falando da programação das TVs, ok?”).

Quando falamos de *conexão*, a visão que impera até hoje é identificada por duas palavras e um sinal: “Cliente / Servidor”. Nossos terminais, PCs e TVs são “clientes”. Grandes computadores e emissoras de TV são “servidores”. A parte minúscula e ignorada na definição, a barrinha “/”, é a rede: a Conexão entre clientes e servidores. Como eu já escrevi em outro ponto desta série, tudo mudou. Mas a visão “cliente / servidor” segue aí. Qual o problema com ela e o que isso tem a ver com o SOOS?

Os papéis de “cliente” e “servidor” estão deixando de ser uma posição, um “cargo vitalício”. O que determinará quando um dispositivo está servindo ou sendo servido é a transação em si. Um iPod, por exemplo, pode ser o “servidor” de músicas em uma casa ou escritório. Em outro momento ele pode ser servido por um micro, para ser devidamente “reabastecido”.

Colocando de outra forma: a inteligência não estará mais centralizada. Marvin Minsky (em “The Society of Mind”, de 1987), diz que “a inteligência não estará num processador central, mas no comportamento coletivo de um grande grupo de máquinas de usos mais específicos e altamente interconectadas”. É por isso que a visão de um SO que funcione como um “Media Center” é de sucesso bastante duvidoso. Home theather, micro, DVD, iPod, videogame, cafeteira e nossa aguardada TV inteligente (e digital) não precisarão de um controle central. Demandarão, isso sim, uma “alta interconexão”.

Como eu escrevi no artigo anterior, não é necessário que exista um único SO (um mega-monopólio) para todos os aparelhos inteligentes. O que importa é que eles compartilhem uma série de características essenciais mínimas. Creio que isso só será possível com a adoção de padrões abertos. Mas isso é outro assunto (veja nota no final do artigo).

Os padrões e protocolos de comunicação que existem atualmente já são suficientes para atender essa nova visão. A questão está mesmo em nossos SOs, em sua passividade e uma certa “burrice” (os terminais riram agora, babando veneno).

Viver em Sociedade

Quando falamos em serviços de Conexão do SOOS, queremos tratar de sua capacidade de viver em sociedade. Ele saberá identificar potenciais clientes e servidores, pares e semelhantes, amigos e inimigos. Lembrem-se que um componente (serviço) deste anel é exatamente a Segurança. O SOOS saberá evitar maus elementos e indivíduos que, desprovidos do SOOS, vivem doentes (infectados por vírus e semelhantes). Soou meio facista mas, no mundo das máquinas, a coisa será assim mesmo. Questão de sobrevivência. Lembram-se que no artigo anterior eu falei que o SOOS “defende a sua existência”?

Novos dispositivos e novos protocolos continuarão surgindo. Quando um cara novo aparecer, como por exemplo o barman D2C (equipamento especialista em caipirinhas – dose dupla!), falando uma nova língua, ele instruirá os outros equipamentos de seu meio (micro, geladeira e afins) onde buscar o serviço que “ensina” aquela nova língua. O SOOS buscará aquele novo serviço e começará a falar instantaneamente com o querido barman: “Capitão, manda mais zuma caipira caprichada!”. Ok, é quase a mesma maneira como o Neo (Matrix) aprendeu Jiu-Jitsu. Só que o SOOS não precisará de disquetes ou cartuchos, né? Ele simplesmente pega o serviço na rede. Pronto.

Tudo no SOOS estará conectado com o mundo externo. Mesmo aqueles serviços de “auto-gestão”, que descrevi no capítulo anterior, dependerão da Conexão. É como se todo dispositivo possuísse um irmão gêmeo virtual, um ‘avatar’. O primeiro benefício óbvio é o backup – uma cópia de segurança. Se você trocar seu micro, por exemplo, não precisará ensinar tudo de novo para ele. E o aprendizado adquirido por um dispositivo estará disponível para todos os demais. Por “aprendizado” entenda não só aquela parte de “conhecimento do dono”, um serviço do primeiro anel, mas também todos os Serviços que o SOOS “aprendeu” durante sua vida em um determinado dispositivo.

Este conceito valerá tanto para funcionalidades (serviços) quanto para dados e informações. Se você comprar um editor de textos, por exemplo, ele estará disponível em seu micro mas também na sua TV. Não sei porque você utilizaria um editor de textos em uma TV, talvez para compor um email ou uma mensagem SMS (argh!) que você quer mandar para aquele apresentador ‘bacana’. Você também pode adquirir uma música ou um filme. Aqui o exemplo faz mais sentido. Aquela música estará disponível para todos os seus dispositivos que saibam tocar músicas. Engraçado é que quem desenhou algumas implementações do quase-finado DRM tentava evitar exatametne isso: que você pudesse escutar sua música onde fosse mais conveniente e confortável. Não importa (mais). O fato é que você não precisará se preocupar em fazer cópias e mais cópias. Sua música (ou filme, livro, serviço) estará disponível em qualquer dispositivo. Instantaneamente.

Online X Offline

Boa parte dos debates que rolaram desde o início desta série girou em torno do duelo “online X offline”. Como eu escrevi acima, o SOOS estará conectado 24x7x365 (24horas por dia, 7 dias por semana, o ano todo). Ou seja, ele será naturalmente online. Chegará o dia em que não falaremos mais tanto da tal Internet, assim como hoje não falamos da energia elétrica. Nossos filhos ou netos não darão tanta importância para ela porque ela será uma coisa natural, que “sempre esteve aí”. E a ubiqüidade da rede, sua presença em tudo (do boné ao Porshe, do serviço público ao menor servicinho privado), a torna invisível. O SO do século XXI verá a Internet da mesma forma: como uma coisa natural. Lembrará sorrindo do tempo em que seus vovôs faziam conexões “dial-up”.

Mas isso não significa que todos os usos que faremos de nossos dispositivos ocorrerão obrigatoriamente online. Como eu disse em uma das discussões, é uma questão de conveniência e conforto. Dados e informações serão filtrados e depositados em nossos dispositivos. Alguns serão temporários, outros com prazo de validade indeterminado (como as músicas, por exemplo). Com os serviços deve ocorrer a mesma coisa. Aquele “agente” que ajudará a fazer a declaração do imposto de renda não precisa ocupar espaço durante todo o ano. Até porque ele muda todo ano. Já os serviços de edição de textos e planilhas eletrônicas podem residir indefinidamente em nossos discos.

Acho que chegou a hora de falar um pouco mais sobre Orientação a Serviços, o OS ou SO do SOOS (sigla chique fica inalterada em inglês ou português, hehe). Como esse artigo já ficou longo pra chuchu, e já são 19hs de uma SEXta-feira… fica para a próxima.

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Sobre Padrões (Sistemas) Abertos

Vou surrupiar o penúltimo parágrafo da página 47 de “A Vida Digital”, único livro publicado pelo Nicholas Negroponte. Literatura obrigatória se você gosta da vida no século XXI. O livro é de 95. Vamos lá:

O conceitos dos ‘sistemas abertos’ é vital, um conceito que exercita a porção empreendedora de nossa economia e desafia tanto os sistemas proprietários quanto os monopólios mais amplamente regulamentados. E ele está ganhando. Num sistema aberto, competimos com nossa própria imaginação, e não contra uma chave e uma fechadura. O resultado não é apenas um maior número de companhias bem-sucedidas, mas também uma gama maior de alternativas para o consumidor e um setor comercial cada vez mais ágil, capaz de rápidas mudanças e de um veloz crescimento. Um sistema aberto de verdade é de domínio público, está totalmente disponível na condição de uma fundação sobre a qual todos podem construir.

Haverá um MacSOOS, WinSOOS, SOOSix etc. Mas todos serão construídos sobre uma base totalmente aberta e livre. Dada a amplitude e relativa complexidade do SOOS, não vejo ele acontecendo de outra forma que não seja como um Sistema Aberto.

“Competimos com nossa própria imaginação”. Onde ocorrerão as diferenciações? Em que campo se dará a concorrência no SOOS? Ou, colocando de outra maneira, onde estará a grana no SOOS? O próximo artigo responderá.

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