Crítica: “Steve Jobs” não é só mais um filme sobre Steve Jobs


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12/01/2016 às 16:12

Depois de amanhã, quinta-feira (14/1), estreia no Brasil o aguardado e polêmico “Steve Jobs”. O filme seria inicialmente produzido pela Sony mas passou para a Universal Pictures, foi dirigido por Danny Boyle, roteirizado por Aaron Sorkin (com base na biografia autorizada de Jobs, escrita por Walter Isaacson) e traz em seu elenco nomes como Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels e Michael Stuhlbarg.

Hoje mais cedo tive finalmente a oportunidade de assistir ao filme, que ganhou dois prêmios do Globo de Ouro e tem três indicações ao BAFTA — nesta semana, saberemos também se ele concorrerá a algum Oscar. Apesar desse reconhecimento a produção não tem ido muito bem nas bilheterias americanas, ficando aquém inclusive de “jOBS” (filme de 2013, estrelado por Ashton Kutcher).

Imagem do filme "Steve Jobs"

Se você não curte spoilers, sugiro que interrompa a leitura aqui. Não que eu pretenda encher o texto deles, mas também não vou poupar certos comentários até porque o enredo do filme como um todo já é bastante conhecido por aí. Escrevo como um amante do cinema e um grande admirador da Apple, não como um especialista da área.

O que posso lhes garantir, de antemão, é que “Steve Jobs” não é só mais um filme sobre Steve Jobs. É importante pontuar isso pois, desde que surgiram as primeiras confirmações de que essa produção iria para frente, o que mais vi por aí foram reações negativas à insistência de Hollywood de contar, de diversas formas, a história desse gênio. Concordo que talvez agora já esteja de “bom tamanho”, mas saí do cinema hoje satisfeito com o que vi.

Imagem do filme "Steve Jobs"

Sorkin mais uma vez mostra por que é um escritor diferenciado. Ele realmente conseguiu roteirizar mais um filme sobre Jobs sem nos mostrar a mesma história de sempre encenada por pessoas diferentes. Não temos, em “Steve Jobs”, um mero resumo do que foi o lançamento do Macintosh (em 1984), do NeXT Computer (em 1988) e do iMac (em 1998). O filme retrata a personalidade de Jobs — ao menos sob os olhos e a interpretação de Isaacson e de Sorkin — de uma maneira brilhante, aliada à sua relação com a sua filha Lisa Brennan (interpretada por três atrizes diferentes — aos 5, 9 e 19 anos de idade), com Joanna Hoffman (interpretada por Winslet, que era o “braço direito” de Jobs em marketing tanto na Apple quanto na NeXT), com Steve Wozniak (interpretado por Rogen), com Andy Hertzfeld (interpretado por Stuhlbarg) e com John Sculley (interpretado por Daniels).

O filme todo é centrado nesses três momentos específicos da vida de Jobs, mostrando os bastidores de cada um dos lançamentos com pequenos flashes de cenas fora deles (como quando Jobs e Woz estavam criando os primeiros computadores da Apple na garagem dos seus pais adotivos, na década de 1970, e quando Jobs foi “demitido” da Apple após o fracasso de vendas do Macintosh) e destacando as relações complicadas que ele tinha tanto pessoal quanto profissionalmente.

Imagem do filme "Steve Jobs"

É fácil entender por que os parentes de Jobs e seus amigos/colegas mais próximos na Apple condenam a biografia de Isaacson e, consequentemente, esse filme. O retrato dele não é dos mais belos, seguindo aquela ideia já caricata de que Jobs era um gênio bastante arrogante/presunçoso. É triste ver a insistência dele em negar a paternidade da sua filha Lisa, por muitos anos servindo apenas como um provedor financeiro para a ex-namorada e mãe da sua primogênita, Chrisann Brennan (interpretada por Katherine Waterston).

De uma maneira bastante ficcional, evidentemente, o filme concentra todo esse complicado enredo nos minutos que antecedem cada um dos três lançamentos supracitados. É a partir deles que compreendemos a cronologia da vida de Jobs no período de cerca de uma década e meia retratado no filme, sem se ater muito à história da Apple e aos seus produtos em si. Cada um dos três momentos termina exatamente quando Jobs sobe ao palco das respectivas keynotes.

Imagem do filme "Steve Jobs"

São duas horas de uma produção relativamente simples, com poucas locações e sem firulas/efeitos especiais. Duas horas de diálogos intensos porém nada cansativos, com apresentações exemplares principalmente de Fassbender e Winslet. Foi um prazer assistir a esse roteiro sob os olhos de Boyle, que, conforme contamos há um tempo aqui no site, teve a brilhante sacada de utilizar três tecnologias diferentes de filmagem (16mm, 35mm e digital) para os três momentos retratados no filme — a fim de, sem a necessidade de edições complexas na pós-produção, dar um ar compatível com cada uma das épocas de maneira totalmente visual.

Naturalmente, Kutcher se parece muito mais com Jobs do que Fassbender. A produção poderia talvez ter se esforçado um pouquinho mais na caracterização, mas a representação visual do protagonista nos três momentos do filme foi totalmente compatível com a realidade. E a qualidade do ator é tamanha que você termina de vê-lo realmente “enxergando” Jobs na pessoa de Fassbender; isso não aconteceu, ao menos não comigo, quando eu assisti a “jOBS”. Só para vocês terem uma ideia, Fassbender memorizou(!) as mais de 180 páginas do roteiro.

Imagem do filme "Steve Jobs"

Se a sua dúvida é “Devo ir ver esse filme no cinema?”, lhe digo que eu pretendo ir ver *mais uma vez* no cinema. Okay, eu não só lá uma grande referência para isso; mas não consigo, sinceramente, recomendar que você aguarde para ver em casa. Trata-se de um belíssimo trabalho da produção e do elenco, que felizmente me surpreendeu.

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