Justiça dos EUA quer que Apple ajude o FBI a hackear iPhone de terrorista; Tim Cook responde com carta aberta [atualizado 3x]


No fim de 2015, Tashfeen Malik (de 27 anos) e Syed Farook (de 28 anos) mataram 14 pessoas e deixaram outras 22 feridas ao invadir o Inland Regional Center (uma instituição de apoio a deficientes na cidade de San Bernardino, na Califórnia) com dois rifles e duas pistolas. Logo depois, o FBI (Federal Bureau of Investigation) anunciou que passou a investigar o ataque como ato terrorista já que a mulher suspeita de cometer o crime com o marido jurou lealdade ao Estado Islâmico (EI) no Facebook. Pois agora essa história respingou na Apple.

Nesta semana, conforme informou a NBC News, um juiz federal ordenou que a Apple desse aos investigadores acesso aos dados criptografados no iPhone 5c usado por um dos atiradores, algo que até então a empresa havia se negado a fornecer voluntariamente. Já o The Washington Post fala que, na verdade, o Departamento de Justiça quer “apenas” que a Apple desative o recurso que apaga os dados do aparelho após dez tentativas de digitação de código incorretas — assim eles poderão utilizar “força bruta” (dezenas de milhões de combinações) para tentar ganhar acesso ao iPhone.

Depois do tiroteio em San Bernardino, autoridades disseram que recuperaram vários telefones celulares de Farook e Malik — alguns danificados pois eles tentaram destruir os aparelhos justamente para que não caíssem nas mãos das autoridades. O iPhone 5c em questão — propriedade do empregador de Farook, o Departamento de Saúde Pública do Condado San Bernardino, que atribuiu o aparelho a ele — foi encontrado em um carro pertencente à família de Farook. Apesar de terem na mão um mandado, as autoridades simplesmente não conseguem ter acesso ao conteúdo do iPhone.

O documento diz ainda que a Apple precisa oferecer “assistência técnica razoável” para recuperar os dados do atirador e que tem cinco dias para responder se essa ajuda seria “excessivamente onerosa”.

A discussão não é nova. Por muitas vezes Tim Cook (CEO da Apple) declarou que não compactua com a ideia de colocar uma backdoor nos sistemas da Apple para que governos e/ou agências de inteligência tenham acesso aos dados de usuários pois, uma vez que a brecha esteja lá, ela poderia ser utilizada tanto para o “bem” quanto para o “mal”.

Mantendo o seu posicionamento de ser bastante transparente quando o assunto é privacidade de usuários, Cook publicou uma carta aberta no site da Apple. Eis a nossa tradução livre:

Uma Mensagem aos Nossos Consumidores

O governo dos Estados Unidos solicitou que a Apple tome uma atitude inédita a qual ameaça a segurança dos nossos consumidores. Nós nos opomos a esse pedido, que tem implicações bem além do caso legal em questão.

Este momento clama por uma discussão pública, e queremos que nossos consumidores e pessoas de todo o país saibam o que está em jogo.

A Necessidade de Criptografia

Smartphones, liderados pelo iPhone, se tornaram parte essencial das nossas vidas. Pessoas usam eles para armazenar uma quantidade incrível de informações pessoais, de conversas privadas a nossas fotos, nossas músicas, nossas anotações, nossos calendários e contatos, nossas informações financeiras e dados de saúde, até mesmo onde estivemos e aonde iremos.

Toda essa informação precisa ser protegida de hackers e criminosos que querem acessá-la, roubá-la e usá-la sem o nosso conhecimento ou permissão. Consumidores esperam que a Apple e outras companhias de tecnologia façam de tudo ao nosso alcance para proteger suas informações pessoais, e na Apple nós somos profundamente comprometidos a proteger os seus dados.

Comprometer a segurança da nossa informação pessoal pode acabar colocando a nossa segurança pessoal em risco. É por isso que criptografia se tornou tão importante para todos nós.

Por muitos anos, nós utilizamos criptografia para proteger os dados pessoais dos nossos consumidores pois acreditamos que é a única forma de manter suas informações seguras. Nós até mesmo colocamos esses dados fora do nosso alcance, visto que acreditamos que os conteúdos do seu iPhone não dizem respeito a nós.

O Caso de San Bernardino

Ficamos chocados e injuriados com o ato fatal de terrorismo em San Bernardino, em dezembro passado. Nós lamentamos a perda de vidas e queremos justiça a todos cujas vidas foram afetadas. O FBI solicitou a nossa ajuda nos dias subsequentes ao ataque, e trabalhamos duro para atender aos esforços do governo a fim de resolver esse crime terrível. Não temos simpatia nenhuma por terroristas.

Quando o FBI solicitou dados que estão sob a nossa posse, nós os provemos. A Apple consente a intimações válidas e mandados de busca, e fizemos isso no caso de San Bernardino. Nós também disponibilizamos engenheiros da Apple a aconselhar o FBI e lhes oferecemos as nossas melhores ideias em várias opções investigativas ao dispor deles.

Nós temos grande respeito aos profissionais do FBI e acreditamos que as intenções deles são boas. Até hoje, fizemos tudo que está tanto ao nosso alcance quanto dentro da lei para ajudá-los. Mas agora o governo dos EUA nos pediu algo que nós simplesmente não temos, e algo que nós consideramos muito perigoso criar. Eles nos pediram para construir uma porta dos fundos [backdoor] para o iPhone.

Especificamente, o FBI quer que nós criemos uma nova versão do sistema operacional do iPhone, pulando vários importantes recursos de segurança, e o instale num iPhone encontrado durante a investigação. Nas mãos erradas, esse software — que não existe hoje — teria o potencial de desbloquear qualquer iPhone sob posse física de alguém.

O FBI pode até usar palavras diferentes para descrever essa ferramenta, mas não se engane: criar uma versão do iOS que ignora segurança dessa forma irá inegavelmente criar uma porta dos fundos. E embora o governo argumente que o seu uso seria restrito a esse caso, não há forma de garantimos tal controle.

A Ameaça a Segurança de Dados

Alguns dirão que construir uma porta dos fundos para apenas um iPhone é algo simples, uma solução direta. Mas isso ignora tanto os princípios básicos de segurança digital quanto a significância do que o governo está pedindo nesse caso.

No mundo digital de hoje, a “chave” para um sistema criptografado é uma peça de informação que desbloqueia os dados, e ela só é tão segura quanto as proteções à sua volta. Uma vez que a informação é conhecida, ou uma forma de ignorar o código é revelada, a criptografia pode ser quebrada por qualquer um com esse conhecimento.

O governo sugere que essa ferramenta só possa ser usada uma única vez, em um telefone. Mas isso simplesmente não é verdade. Uma vez criada, a técnica poderia ser usada inúmeras vezes, e em qualquer dispositivo. No mundo físico, seria o equivalente a uma chave-mestra, capaz de abrir centenas de milhões de travas — de restaurantes a bancos a lojas a residências. Nenhuma pessoa razoável acharia isso algo aceitável.

O governo está pedindo que a Apple invada os nossos próprios usuários e arruine décadas de avanços em segurança que protegem os nossos consumidores — incluindo dezenas de milhões de cidadãos americanos — de hackers e cybercriminosos sofisticados. Os mesmos engenheiros que construíram uma forte criptografia no iPhone para proteger os nossos usuários iriam, ironicamente, ser obrigados a enfraquecer essas proteções e tornar os nossos usuários menos seguros.

Não conseguimos achar nenhum precedente de uma empresa americana sendo forçada a expôr seus clientes a um risco maior de ataques. Por anos, especialistas em criptografia e em segurança nacional têm emitido alertas contra o enfraquecimento de criptografia. Fazer isso só prejudicaria os cidadãos de bem e dentro da lei que dependem de empresas como a Apple para proteger os seus dados. Criminosos e malfeitores ainda irão usar criptografia, usando ferramentas ao dispôr deles.

Um Precedente Perigoso

Em vez de solicitar uma ação legislativa através do Congresso, o FBI está propondo um uso sem precedente do All Writs Act de 1789 para justificar a expansão da sua autoridade.

O governo nos obrigaria a remover recursos de segurança e adicionar novas capacidades ao sistema operacional, permitindo que uma senha seja digitada eletronicamente. Isso facilitaria desbloquear um iPhone por “força bruta”, experimentando milhares ou milhões de combinações com a velocidade de um computador moderno.

As implicações das demandas do governo são deprimentes. Se o governo pode usar o All Writs Act para facilitar desbloquear o seu iPhone, ele teria o poder de adentrar qualquer dispositivo a fim de capturar os seus dados. O governo poderia estender essa brecha de privacidade e demandar que a Apple construa softwares de vigilância para interceptar suas mensagens, acessar seus registros de saúde e dados financeiros, acompanhar a sua localização, ou até mesmo acessar o microfone ou a câmera do seu telefone sem o seu conhecimento.

Contrariar esse pedido não é algo que estamos fazendo levemente. Sentimos que precisamos fazer frente ao que enxergamos ser algo além da conta pelo governo dos EUA.

Estamos desafiando as demandas do FBI com o maior dos respeitos pela democracia americana e um amor pelo nosso país. Nós acreditamos que seria o melhor para todos dar um passo atrás e considerar as implicações.

Embora acreditemos que as intenções do FBI sejam boas, seria errado para o governo nos forçar a construir uma porta dos fundos em nossos produtos. E no fim das contas, nós tememos que essa demanda poderia arruinar justamente a independência e a liberdade que o nosso governo busca proteger.

Tim Cook

Sem dúvida é um assunto altamente delicado, em que muito provavelmente não existe certo ou errado. Existem, sim, ideais. Cook acredita que o correto é defender a privacidade de usuários — algo que poucas empresas fazem como a Apple, o que não deixa de ser uma vantagem competitiva para ela se você se importa com isso — com unhas e dentes e tem feito isso de uma maneira louvável.

Essa história toda, porém, está longe de terminar…

Atualização · 17/02/2016 às 21:51

Jan Klum, cofundador do WhatsApp, publicou a seguinte mensagem no Facebook em apoio a Tim Cook:

http://www.apple.com/customer-letter/ – I have always admired Tim Cook for his stance on privacy and Apple's efforts to…

Publicado por Jan Koum em Quarta, 17 de fevereiro de 2016

Eu admiro Tim Cook pela sua posição sobre privacidade, a Apple pelos esforços para proteger os dados de usuários e não podia estar mais de acordo com tudo o que ele disse na sua carta para clientes hoje. Não devemos permitir que este precedente perigoso seja definido. Hoje a nossa independência e liberdade estão em jogo.

Edward Snowden também manifestou apoio à Apple:

O @FBI está criando um mundo onde os cidadãos dependem da #Apple para defender os seus direitos e não o contrário.

E ainda sobrou para o Google…

Este é o caso de tecnologia mais importante em uma década. O silêncio significa que o @google escolheu um lado, mas não é o do povo.

[via Fortune, Cult of Mac]

Atualização II · 17/02/2016 às 22:37

Demorou, mas chegou a vez do Google de se posicionar — através do seu CEO, Sundar Pichai:

1/5 Post importante de @tim_cook. Forçar as empresas a permitir hackeamento poderia comprometer a privacidade dos usuários.

2/5 Sabemos que as agências de inteligência e órgãos de segurança enfrentam desafios significativos em proteger o público contra o crime e o terrorismo.

3/5 Nós criamos produtos seguros para manter suas informações seguras e damos acesso aos dados a órgãos de segurança com base nas ordens jurídicas válidas.

4/5 Mas isso é totalmente diferente do exigir que empresas permitam hackeamento de dispositivos e dados de clientes. Pode ser um precedente preocupante.

5/5 Estamos ansiosos para uma discussão aberta e pensativa sobre este importante assunto.

[via The Verge]

Atualização III · 18/02/2016 às 23:44

Eis a declaração oficial do Facebook:

Nós condenamos o terrorismo e temos total solidariedade com as vítimas do terror. Aqueles que buscam enaltecer, promover ou planejar atos terroristas não têm lugar nos nossos serviços. Nós também apreciamos o trabalho difícil e essencial de órgãos de segurança pública para manter as pessoas seguras. Quando recebemos solicitações legais dessas autoridades, nós cumprimos. No entanto, vamos continuar lutando de forma agressiva contra requisitos para que empresas enfraqueçam a segurança de seus sistemas. Essas demandas criariam um precedente arrepiante e obstruiriam os esforços das empresas em proteger seus produtos.

E a de Jack Dorsey, um dos criadores do Twitter:

Estamos ao lado de @tim_cook e da Apple (e o agradecemos por sua liderança)!

Em uma nota relacionada, a Bloomberg disse agora que a Apple terá mais tempo para decidir se irá ou não cooperar com o FBI — na carta de Tim Cook, ele afirma que a Maçã teria cinco dias para responder, mas agora o prazo teria pulado para 26 de fevereiro.

[via Re/code, 9to5Mac]

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