Startups, crescimento, boas ideias e ideias ruins


Por
18/03/2016 às 09:33

Todos os dias, centenas de startups espalhadas pelo mundo recebem aportes milionários e outras centenas deixam de funcionar. As razões para o fim do negócio são diversas, mas uma dentre todas as outras se destaca com enorme frequência. Essa razão é ilustrada por uma frase relativamente famosa no meio do empreendedorismo e que gela a espinha dos mais experientes empresários. Tenho certeza de que Mark Zuckerberg tem pesadelos com ela: “Inability to acquire and retain a substantial number of users.”

Traduzindo: inabilidade em adquirir e reter uma quantidade significativa de usuários. A palavra-chave de qualquer startup é crescimento. Se o negócio não cresce, não escala, não ganha mais usuários, está fadado ao fracasso — com algumas raras exceções. É o que vemos diariamente. Inclusive existe um site que disseca todos os fracassos do mundo das startups.

O que me leva ao cerne da questão.

Muito bem colocado pelo Paul Graham [foto acima], fundador da Y Combinator (incubadora do Dropbox e do Airbnb) em seus artigos “How to get startup ideas” e “How to start a startup”, startups que fracassam geralmente o fazem porque falham em crescer. Mas falhar em crescer nada mais é do que um reflexo do seu produto.

A analogia que ele faz é a seguinte: pense em um restaurante famoso e badalado onde a comida seja ruim. Eles não existem. Por mais distante, barulhento, lotado ou com serviço ruim, restaurantes cuja comida é deliciosa prosperam, independentemente de qualquer coisa. E o mesmo funciona com tecnologia. Não existe uma startup cujo produto seja incrivelmente bom que tenha fracassado.

O que nos traz a outro ponto que quero destacar: como saber se seu produto e sua ideia são bons? Nesse sentido, Graham cria outra analogia perfeita. Imagine que você é um roteirista de televisão americana e precisa, com urgência, escrever um episódio em que um dos personagens cria uma startup. Você, então, faz um esforço consciente para pensar em alguma coisa. Não vem naturalmente a você.

O resultado desse tipo de pensamento geralmente é uma ideia ou um produto que parece plausível. Se você perguntar na rua, para amigos e familiares, a maioria vai dizer que usaria, mas de fato ninguém usa. O exemplo que Graham utiliza é uma rede social para animais de estimação. Boa parte da população tem bichinhos de estimação e a maioria das pessoas usa redes sociais, então é uma conclusão lógica que uma rede social para animais de estimação vá prosperar.

Mas ela não prospera, porque não veio de uma dor e startups nascem das dores. Quanto maior for a dor, quanto mais relevante for o problema que ela se propõe a resolver, mais valor é gerado.

A maioria esmagadora das startups hoje em dia faz uma coisa: entrega um software mais fácil de usar do que o que existia anteriormente. Pense nas startups brasileiras do momento: Nubank, GuiaBolso, Hotel Urbano, QuintoAndar, Mobly, iFood, Buscapé, Samba Tech… Todas elas entregam um software de qualidade melhor do que o que existia antes.

Todas as semanas recebemos materiais de divulgação de desenvolvedores brasileiros e suas startups e muitos estão fazendo um trabalho incrível, criando empresas de padrão Vale do Silício. Esta semana, os fundadores do Talkzer entraram em contato para contar um pouco do trabalho deles. O aplicativo é uma rede social de áudios (esses que enviamos pelo WhatsApp) e funciona no formato de feed, similar ao Instagram, mas em vez de imagens, são gravações de até 20 segundos. Ficamos surpresos com a qualidade técnica e estética do app: performance excelente e identidade visual impecável. A ideia é ambiciosa.


Desculpe, app não encontrado.

Contudo, levantamos algumas questões aos desenvolvedores similares ao que discutimos aqui. Questionamos o Felipe Tumonis, cofundador da startup, sobre qual problema eles pretendiam resolver com a rede social. Ele apontou que não pretendiam resolver problemas, mas “a necessidade do ser humano de se expressar”.

Na minha opinião, isso não faz sentido por dois motivos. Primeiro, por uma pequena inconsistência. “Necessidade de se expressar” é, sim, um problema: hoje a humanidade vive solitária e de forma individualista. Segundo: todas as redes sociais resolvem pontualmente problemas menores ou maiores; problemas estruturais justamente dessa necessidade de se expressar. O Facebook começou com a dor de perder contato com a pessoa que você beijou na festa do dia anterior. O Instagram permitiu que as pessoas postassem fotos sem necessariamente mostrá-las no seu perfil do Facebook, além de transformar fotos “problemáticas” em obras de arte, pelo uso dos filtros. O Snapchat surgiu quando um dos fundadores sentiu-se incomodado com o fato de que a foto que acabara de enviar para uma menina ficaria pra sempre na mão dela. O Telegram diz respeito à questão da privacidade. E por aí vai.

O segundo material que recebemos foi justamente de uma rede social para animais de estimação, o Instapet. Como mencionei em cima, as chances de que todos digam que usarão o aplicativo é alto, o número de downloads pode ser alto, mas na minha opinião existe uma barreira muito grande na adesão do público.


icon

Instapet - Rede Social pro seu Pet

de Velasco TI

Compatível com MacsCompatível com iPadsCompatível com iPhonesCompatível com Apple WatchesCompatível com Apple TV
Versão 3.1.0 (17.5 MB)
Requer o iOS 8.0 ou superior

Grátis

Badge - Baixar na App Store

Código QR Código QR

Screenshot do app Instapet - Rede Social pro seu PetScreenshot do app Instapet - Rede Social pro seu PetScreenshot do app Instapet - Rede Social pro seu PetScreenshot do app Instapet - Rede Social pro seu PetScreenshot do app Instapet - Rede Social pro seu Pet

Quando se fala em redes sociais, sempre ouço desenvolvedores e empreendedores dizerem que “sempre há espaço para mais uma”. O exemplo que citam é o fato de várias redes sociais ascenderem ao sucesso e simplesmente desaparecerem (Myspace, Orkut, etc.). Isso de fato aconteceu, mas há muito tempo — e o contexto era diferente. O mercado de redes sociais saturou já faz um tempo.

Os últimos players de grande relevância que surgiram foram Meerkat e Periscope porque, novamente, resolviam um problema pontual: o live streaming de vídeos nas redes sociais sempre foi muito ruim. Isso sem contar que, na hora de empreender no Brasil (tendo em vista o atual cenário econômico), eu optaria por um modelo de negócios que tenha receita recorrente, para não depender de publicidade. Por dois motivos: tem muita chance de que você não consiga um número de usuários decente e acabe queimando dinheiro, e é muito difícil conseguir investimento com risco tão alto no Brasil.

Quanto à rede social de áudios do desenvolvedor brasileiro, não posso prever o futuro. Por um lado, ao brincar um pouco senti muita falta do componente vídeo/foto, o que tornou a experiência levemente morna e impessoal. Quando dei play nos áudios, fiquei buscando inconscientemente um vídeo para olhar. Por outro lado, consigo imaginar celebridades postando áudios de suas vidas.

Uma sugestão que eu daria é tentar adaptar o conceito de feed para as gravações, e não simplesmente exibi-las da mesma forma do Instagram. Em vez de dividir áudio por áudio, vale a tentativa de dar a impressão de continuidade, como se tudo fosse parte de uma mesma “fala’. Quem sabe, em vez de ter que dar play um por um, cada áudio fosse representado por um card que ocupa a tela inteira e, conforme você arrasta o dedo pra cima, eles vão tocando.

·   ·   ·

Mas ainda ficam as perguntas para os dois desenvolvedores: por que eu usaria o Talkzer para me comunicar, e não o Snapchat? Será que vou ter vontade de me engajar numa rede social para animais de estimação? Essa é uma questão que não tem saída: é preciso lançar e testar as hipóteses para saber.

Estamos bastante curiosos para saber as respostas porque, evidentemente, queremos o sucesso de nossos empreendedores tupiniquins. As duas maiores redes sociais do planeta tiveram mão de brasileiros: Eduardo Saverin no Facebook e Mike Krieger no Instagram, o que me leva a crer que temos um belo potencial.

Para concluir, antes de qualquer coisa, quando decidir fundar uma startup não pense conscientemente em ideias para ela. Simplesmente deixe a sua mente em modo de “alerta”, para não cair na armadilha das “startups de seriados”. Quando você sentir uma dificuldade, quando pensar “isso poderia ser feito diferente”, ou “que software mal feito”, é aí que nascerá uma ideia frutífera. Essa é a sugestão do próprio Paul Graham em seus artigos.

Posts relacionados
Comentários
  • Pedro Junior

    Controly é uma startup brasileira que poucos conhecem, eu acho a ideia deles muito boa.

  • Mubarak Nunes Machado

    Que artigo! Simplesmente um dos mais relevantes que tenho lido ultimamente. A meu ver, muito coerente.

  • Daniel Dahia

    Muito obrigado, Mubarak! Pretendo continuar com esse nível.

  • caiqe

    curti o aplicativo e a ideia tbm, principalmente a transferência gratuita via facebook e o fato de ter uma conta virtual, podendo sacar e tudo mais, mas como to na economia e fugindo de taxas vou esperar quem sabe por algo parecido no NuBank, é pedir demais n ter essas taxas mas vai que..

  • Pedro Junior

    Segundo eles as taxas ainda existe pela quantidade pequena de usuários no serviço.

  • Cláudio Castro

    Parabéns pelo texto, bom conhecer outras pessoas q compartilham as mesmas ideias.

  • Luiz Fernando

    Adorei o texto, esses novos autores do MM estão demais

  • Daniel Dahia

    Muito obrigado, Luiz!

  • Daniel Dahia

    Valeu, Cláudio!

  • João Paulo Souza Soares

    Gostei bastante do artigo, mas acho q o começo dele dá uma ideia incompleta ao falar que o produto tem que ser bom, mas não explica direito o que é um produto bom. Ao longo do texto isso fica mais claro para os leitores mais atentos, mas pode ficar confuso para quem está vendo o conceito pela primeira vez. Uma contradição que os leitores podem achar que o texto contém é do Talkzer ser considerado um app bom tecnicamente, afinal, não é isso que importa? Um produto bom? Para uma startup crescer o produto tem que ser bom tecnicamente, mas antes disso ela já trabalhou muito para ele ser bom em outro sentido, o de criar a necessidade de seus usuários.

  • Daniel Dahia

    Concordo com você, João. Realmente, deveria ter explicado melhor o que é um produto bom.

  • Mário Klein

    Daniel, quando terminei de ler o artigo meu sentimento foi exatamente igual ao do Mubarak e desci aqui nos comentários para escrever a mesma coisa. Preferi só fazer um adendo ao comentário dele para dar mais ênfase aos parabéns. Muito bom o conteúdo, a forma como foi escrito as referências, os exemplos, em fim. Parabéns!!!

Aviso: nossos editores/colunistas estão expressando suas opiniões sobre o tema proposto e esperamos que as conversas nos comentários sejam respeitosas e construtivas. O espaço acima é destinado a discussões, debates sobre o tema e críticas de ideias, não às pessoas por trás delas. Ataques pessoais não serão tolerados de maneira nenhuma e nos damos ao direito de ocultar/excluir qualquer comentário ofensivo, difamatório, preconceituoso, calunioso ou de alguma forma prejudicial a terceiros, assim como textos de caráter promocional e comentários anônimos (sem nome completo e/ou email válido). Em caso de insistência, o usuário poderá ser banido.


Carregar mais posts recentes