Artigo de leitor: usando o iPad como o meu computador principal


por Zendrael

Há quem diga que não é possível, há quem garanta que é a melhor coisa do mundo, há quem tem vontade de usar e quem nunca nem testou. O fato é que não basta apenas trocar de sistema operacional, deve-se também mudar a forma de pensar ao adotar um novo sistema como o iOS para executar as principais tarefas do seu fluxo de trabalho.

Sou desenvolvedor de software (programador) desde 2001 e abandonei o Windows em 2003, migrando para sistemas GNU/Linux e BSD; em 2009 utilizei Mac OS X em um Hackintosh para então comprar o meu primeiro MacBook Air de 11″, em 2010. O primeiro iPad, em sua primeira versão, não me lembro exatamente quando foi adquirido. Com o tempo comecei a acreditar que o iPad poderia ser meu computador perfeito se possuísse os apps necessários e, após passar por outros MacBooks, iPads e um Chromebook, hoje tenho realizado minhas atividades em um iPad Pro de 12,9″ e usado um Mac mini de 2012 como servidor de build e dados.

Fuçando na internet podemos encontrar relatos de várias pessoas, em várias profissões que, a partir do lançamento do iPad Pro, têm intensificado o uso do iOS em suas tarefas diárias e deixado aos poucos de utilizar o macOS até o ponto em que algumas estão vivendo 100% utilizando seus iDevices. Entre alguns, estão os relatos de Federico Viticci, Fraser Speirs, Ben Brooks e outros que podem ser encontrados em redes sociais e blogs. Vale ressaltar que não necessariamente eles começaram a pensar no iOS como seu sistema operacional principal a partir do lançamento do iPad Pro, mas sim a partir do momento em que o iPad e o iOS em si permitiram a melhor execução de tarefas pertinentes à sua rotina. Não defenderei aqui que todos devem realizar esse tipo de mudança, apenas demonstrarei que, no meu caso e de algumas outras pessoas, isso é possível e trouxe benefícios — pode não ser o seu caso.

O conceito que mais preocupa as pessoas e a maior quantidade de reclamações de quem tenta fazer essa transição é com relação ao iOS não possuir um gerenciador de arquivos. Para quem está acostumado com organização de arquivos e pastas de forma estruturada, acaba se frustrando com a organização dos arquivos pelos aplicativos e impede que possam progredir com seus trabalhos. A mudança da forma de pensar é fundamental neste ponto, pois é perfeitamente possível abrir arquivos em apps diferentes e transferir de um para o outro, seja utilizando alguma área do iOS como área de troca (fotos, por exemplo), seja por uso de um armazenamento em nuvem ou pelo uso do botão para compartilhar o que está fazendo. Pense num software muito utilizado por você hoje e lembre-se como foi quando aprendeu a utilizá-lo, a dificuldade até se acostumar, ou se migrou para o atual depois de tempos utilizando outro… Sua mente deve aprender como o iOS trabalha para que seu fluxo de trabalho não seja prejudicado, ou um novo fluxo deve ser criado.

Se o leitor já trabalha com programas em tela cheia no macOS e alterna entre eles pelos espaços de trabalho usando gestos no trackpad ou atalhos de teclado (fui aos poucos diminuindo o número de janelas abertas ao mesmo tempo numa mesma área de trabalho), estará confortável ao usar o iOS. Também me acostumei a invocar o Spotlight pelo teclado e encontrar o que precisava, e os atalhos funcionam da mesma forma no iOS 10.

A cada novo app com foco na utilização profissional do iOS, mais simples a transição se tornou. Um bom exemplo é o app Workflow, que funciona como um Automator para iOS, totalmente gráfico e repleto de “receitas” para diversas ações. Facilita muito o trabalho repetitivo de algumas tarefas — vale a pena conferir para quem não conhece.

Especificamente para a minha área, qualquer editor de texto puro é suficiente para editar os códigos dos programas desktop, apps, web e games. Tenho usado o Coda pois é mais estável no iOS 10 do que o Koder que eu usava anteriormente. Ele permite que eu acesse diretamente arquivos via FTP, SFTP, SSH ou WebDAV. Quando há a necessidade de ver ou testar algo que não pode ser acessado através do navegador, uso qualquer conexão remota como VNC ou Área de Trabalho Remota do Chrome para visualizar o Mac mini com macOS Sierra. Na eventual necessidade de compilação de códigos ou criação de novos projetos, acesso apenas por SSH usando o app Serverauditor e executo os comandos necessários. Mantenho também uma cópia dos projetos em que estou trabalhando no Dropbox e no Google Drive por questões de segurança, e para acesso quando não é possível me conectar ao servidor. É possível, dependendo do tipo de projeto, realizar toda a programação diretamente no iPad, mas meu fluxo de trabalho já era como faço hoje e não precisei alterar isso, somente mudei algumas ferramentas.

Algumas pessoas já me perguntaram sobre o “gorilla arm”, que refere-se ao cansaço de levantar os braços para tocar na tela do iPad durante seu uso, e posso afirmar que é mais uma questão de costume. Também é pouco perceptível para quem está acostumado a usar os atalhos de teclado. O que mais incomoda é a posição da tela dependendo da cadeira/mesa que se utiliza e requer alguns ajustes (ponto para o Surface Pro!).

De uma forma geral, o iOS tem se tornado meu sistema operacional principal e o iPad Pro, meu substituto ao MacBook. Há, sim, muito o que avançar em vários aspectos mas não podemos esperar que o iOS se torne um macOS, sua proposta não é a mesma e seu funcionamento exige do usuário que quer usá-lo de maneira profissional que se adapte para obter o melhor aproveitamento.

Vou listar alguns pontos a favor e contra esta substituição para quem está pensando em migrar e possui algumas dúvidas — dando ênfase no trabalho de desenvolvedor e de usuário comum:

PRÓS

CONTRAS

·   ·   ·

É difícil esclarecer todos os pontos que possam motivar alguém a se decidir sobre realizar este tipo de mudança ou teste, há muitas profissões cujo trabalho seria impossível de se realizar no iOS e muitas que vêm se provando possíveis. Cabe ao leitor determinar se poderia adaptar sua rotina usando primariamente um iPad ou não.

Obrigado pessoal do MacMagazine pelo espaço e espero que estas palavras sejam interessantes para os leitores. Até mais!

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