Apple sobe o tom: empregados que vazam informações podem não só ser demitidos, como também presos


Lembram de quando a Apple fez um seminário interno sobre a importância de não vazar informações secretas, ele vazou e nós demos gostosas risadas (ou não)? Pois é, aconteceu de novo, de certa forma — só que agora a parada é mais séria.

Mark Gurman, um dos mais respeitados repórteres focados no mundo Apple e célebre por suas informações privilegiadas, divulgou hoje na Bloomberg um novo memorando distribuído internamente na Maçã que, mais uma vez, reforça a instância totalmente anti-vazamentos na empresa e os esforços sendo empreendidos para coibir esse tipo de prática.

Ao contrário do seminário de meses atrás, entretanto, aqui a Apple adota um tom mais grave, para não dizer ameaçador; aparentemente, a coisa está incomodando a alta cúpula da empresa.

Eis o comunicado na íntegra (em livre tradução nossa) — ele é um tanto quanto longo, sim, mas vale a leitura:

No mês passado, a Apple descobriu e demitiu o empregado responsável por vazar detalhes de uma reunião interna e confidencial sobre o planejamento de software da empresa. Centenas de engenheiros de software estavam presentes, e milhares mais na companhia receberam detalhes sobre o que foi discutido. Uma pessoa traiu a confiança de todos.

O empregado que vazou as informações da reunião para um repórter disse aos investigadores da Apple que ele fez isso porque pensou que não seria descoberto. Mas pessoas que vazam — sejam empregados da Apple, pessoas contratadas temporariamente ou fornecedores — sempre são pegas, e elas estão sendo pegas mais rápido do que nunca.

Em muitos casos, vazadores não têm o objetivo inicial de vazar nada. Em vez disso, pessoas que trabalham para a Apple são, muitas vezes, alvos da imprensa, analista e blogueiros que fazem amizade com elas em redes sociais e profissionais, como o LinkedIn, o Twitter ou o Facebook, e começam a tentar extrair informações. Por mais que seja lisonjeiro que alguém lhe aborde pedindo essas informações, é importante lembrar que você está sendo manipulado. O sucesso desses forasteiros é medido na quantidade de segredos que eles conseguem obter da Apple por você e torná-los públicos. Um furo sobre um produto não-lançado da Apple pode gerar um tráfego enorme para uma publicação e beneficiar financeiramente o blogueiro ou repórter que o obteve. Mas o empregado da Apple que vazou a informação tem tudo a perder.

O impacto de um vazamento vai muito além das pessoas que trabalham em um projeto.

Vazar o trabalho da Apple enfraquece todos na empresa e os anos que trabalhamos para criar nossos produtos. “Milhares de pessoas trabalham incansavelmente por meses para trazer cada grande lançamento de software”, diz o líder do UIKit Josh Shaffer, cujo trabalho foi parte do vazamento do iOS 11 no último outono [do hemisfério norte]. “Ver tudo vazar é devastador para todos nós.”

O impacto de um vazamento vai além das pessoas que trabalham num projeto em particular — ele é sentido em toda a empresa. Informações vazadas sobre um novo produto podem impactar negativamente as vendas do modelo atual, dar mais tempo a empresas concorrentes para trabalhar numa resposta competitiva e levar a menos vendas do nosso novo produto quando ele for lançado. “Nós queremos ter a chance de dizer aos nossos clientes o porquê de o produto ser ótimo, e não que isso seja feito pobremente por outra pessoa”, diz Greg Joswiak, do marketing de produto.

A Apple fez investimentos que tiveram um impacto enorme na capacidade da empresa de identificar e pegar vazadores. Logo antes do evento especial de setembro passado, um empregado vazou um link com a versão Golden Master do iOS 11 para a imprensa, de novo acreditando que não seria pego. O sistema não-lançado detalhava novidades em hardware e software que seriam anunciadas logo mais, como o iPhone X. Em poucos dias, o vazador foi identificado por meio de uma investigação interna e demitido. A área de ciência forense digital da Global Security também ajudou a pegar vários empregados que estavam passando detalhes confidenciais sobre novos produtos, como o iPhone X, o iPad Pro e os AirPods, a um blogueiro do 9to5Mac.

Vazadores na cadeia de fornecimento estão sendo pegos, também. A Global Security trabalhou lado a lado com fornecedores para prevenir roubo das propriedades intelectuais da Apple, bem como para identificar indivíduos que tentem acessar informações além do seu alcance. Eles também se juntaram às empresas para identificar vulnerabilidades — tanto físicas quanto tecnológicas — e garantir que seus níveis de segurança satisfazem ou excedem as expectativas da Apple. Estes programas quase eliminaram o roubo de protótipos e produtos de fábricas, revelou vazadores e preveniu que muitos outros vazassem informações dali à frente.

Vazadores não só perdem seus empregos na Apple. Em alguns casos, eles enfrentam tempo na cadeia e multas gigantescas por invasão de rede e roubo de segredos comerciais, ambos classificados como crimes federais. Em 2017, a Apple pegou 29 vazadores; 12 deles foram presos. Dentre eles, funcionários da Apple, empregados temporários e alguns parceiros na cadeia de fornecimento da empresa. Essas pessoas não só perdem seus empregos; elas podem ter extrema dificuldade em encontrar emprego em outro lugar. “As potenciais consequências criminais de um vazamento são reais”, diz Tom Moyer, da Global Security. “E isso pode se tornar parte da sua identidade pessoal e profissional para sempre.”

Ainda que tragam consequências sérias, vazamentos são totalmente evitáveis. Eles são resultado da decisão de alguém que pode não ter pensado no impacto das suas ações. “Todos vêm para a Apple para fazer o melhor trabalho de suas vidas — trabalho que importa e contribui para o que todas as 135 mil pessoas nessa companhia estão fazendo juntas”, diz Joswiak. “A melhor forma de honrar essas contribuições é não vazando-as.”

Como dá pra notar, a Apple não está mais para brincadeira: essa é a primeira vez que a empresa fala francamente sobre as consequências legais de quem vaza suas informações internas — não que vazadores não tenham sido presos antes, mas é novo ver a alta cúpula de Cupertino dizendo bem claramente “se você vazar algo, você vai ser preso”.

O guru de assuntos relacionados à Apple, John Gruber, aponta um aspecto interessante da nota: o vazamento da reunião, citado no primeiro parágrafo, foi publicado por Mark Gurman na Bloomberg. Depois, no sétimo parágrafo, o memorando cita um “blogueiro do 9to5Mac” que estava recebendo informações relacionadas ao iPhone X, ao iPad Pro e aos AirPods antes dos seus lançamentos. Gruber não afirma com certeza a qual blogueiro eles se referem, mas aponta para esta matéria publicada em janeiro de 2016, quase um ano antes do lançamento dos AirPods, sobre o seu projeto. Quem a publicou? Sim, Gurman — à época, ainda trabalhando no 9to5Mac.

Gruber especula que todos os casos citados no memorando foram obtidos, de fato, por Gurman, o que só torna mais curioso que este próprio memorando também tenha sido publicado pelo repórter. Ou seja, alguém pode ser demitido por ter vazado para Gurman o memorando que fala sobre vazadores que foram demitidos após vazarem informações para Gurman… é, minha cabeça também deu um nó. Mas o fato é que ainda tem (muita) gente na Apple disposta a passar essas informações.

Quem não gostou muito do tom da Maçã no memorando foi o desenvolvedor Steven Troughton-Smith: segundo ele, a Apple inverte a situação ao colocar a maior parte da culpa dos vazamentos em jornalistas e blogueiros malvadões (eu, malvadão? Nunca) que estariam persuadindo empregados da empresa, quando a realidade é outra.

O memorando da Apple sobre como eles acham que surgem os “vazadores” é muito fofo. Eles parecem ver a ordem da situação ao contrário, mas eu tenho certeza de que eles preferem culpar a imprensa e os “blogueiros” do que uma cultura corporativa que incentiva os empregados a ficarem muito animados (ou se vangloriarem) sobre coisas que eles não deveriam.

E, no fim das contas, assim caminha a humanidade: a linha fina que a Apple caminha — entre ser a empresa amigável com uma imagem pública de perfeição e ser a perseguidora implacável de funcionários barulhentos — pode resvalar para um lado indesejado, que é o de ataque à imprensa. Vamos ver no que isso vai dar.

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