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Um problema bom de se ter

Apple versus Microsoft

por Mike Davidson, tradução de Halex Pereira

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Apple versus Microsoft

Durante boa parte do fim da década de 1990 e início da década de 2000, eu lembro de ter a mesma conversa de novo, e de novo sobre a Apple e a Microsoft. Isso com meus amigos, com meus colegas e com quem quer que tivesse interesse em computadores. Era mais ou menos assim:

Eles: “Quando é que você vai desistir de uma vez e começar a usar um PC? A guerra acabou. A Apple perdeu.”

Eu: “Eles ainda fazem as melhores coisas, e eu quero apoiar a companhia que as faz melhor, não uma companhia que usa o monopólio dela para vender produtos.”

Eles: “Você não acha que a Apple faria a mesma coisa, se ela estivesse no comando?”

Eu: “Sim. Ela provavelmente seria mais impiedosa ainda, mas pelo menos faria grandes produtos.”

Daí, a conversa tomaria outro rumo, mas eu lembro sempre de ficar pensando com meus botões que, se a Apple voltasse a dominar o mundo, esse seria um problema fantástico. Em vez de termos nosso futuro ditado por uma companhia que nem se importa em consertar um navegador quebrado por mais de cinco anos, teríamos nosso futuro ditado por uma companhia que produziu os produtos mais maravilhosos do mundo. O sonho parecia tão distante, porém, que era fácil perder o pesadelo em potencial nele contido.

Trocando de posições

A Apple provavelmente vai fechar este ano maior que a Microsoft, em termos de market cap. Isso significaria que os valores globais da soma de futuros investimentos na Apple são maiores que os de qualquer outra companhia nos Estados Unidos, depois da Exxon Mobil. Deus a livre de que o terrível vazamento de óleo da BP piore e tenha desdobramentos em outras petrolíferas, ou poderemos ver a Apple como nº1.

Logo prata da AppleEntão, de certa forma, admitimos — ou os investidores admitiram, pelo menos — que a Apple ficará com nossas carteiras por muitos anos no futuro. Isso na verdade é até agradável agora, de alguma forma. Não apenas eu estou usando um ótimo sistema operacional, como outras pessoas também estão. Não apenas eu tenho um telefone que me mantém conectado, como eu também adoro usá-lo. Não apenas eu posso criar experiências na web ricamente concebidas para geeks com bons navegadores, como uma boa maioria das pessoas vão vê-las também.

Muitas coisas estão ótimas, até agora. A recompensa que colhemos como uma sociedade por socar verdinhas na conta bancária da Apple ao longo da década passada foi termos coisas muito melhores agora. É exatamente o oposto do que recebemos por tornar a Microsoft grande.

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Aqueles que estão acompanhando a situação, porém, notaram umas coisas mudando rapidamente, a mais óbvia sendo a mudança para um sistema operacional incrivelmente fechado em iPhones e iPads. Muitos acreditam que é só uma questão de tempo até boa parte dos produtos da Apple rodarem um SO similar. Há muitas definições de “fechado” e de “aberto”, mas cá trago a minha:

Um sistema fechado é um no qual uma única organização tem controle absoluto de tudo o que entra nele e de tudo o que sai dele.

Adobe ignora o fogo, sai queimada

Steve Jobs escreveu em sua até razoável carta condenando o Flash que eram as coisas da Adobe as fechadas e que a Apple é que usava tecnologias abertas, mas o CEO da Adobe — apesar de dizer pouca coisa relevante — estava certo sobre um ponto: isso é só uma cortina de fumaça. Para usar o formato Flash, tudo que eu preciso fazer é ou comprar uma cópia única dele (se o IDE for útil pra mim), ou usar qualquer um dos outros compiladores gratuitos que há por aí. Em outras palavras, a Adobe não precisa nunca nem saber de mim, nem nunca vai ter que aprovar o que eu estiver fazendo ou vendendo.

Shantanu Narayen, CEO da Adobe e diretor da Dell

Para colocar minhas coisas no iPad ou no iPhone, entretanto, eu preciso receber uma autorização explícita de um ser humano que trabalha na Apple depois que este ser humano revisar à mão meu trabalho, deduzir minhas intenções com o produto e fizer um juízo de valor sobre o que minha criação trará ao aparelho. Enquanto esse processo existir, não haverá como argumentar que o iPhone ou o iPad são mais abertos que qualquer outra coisa que eu tenha visto antes… incluindo o Flash. É insensatez alegar que, pelo fato de a Apple estar apoiando padrões abertos como o HTML5 (na verdade em proveito próprio), ela é de alguma forma mais aberta que a Adobe.

O problema da Adobe nessa bagunça é que ela se meteu numa sinuca de bico com o público. Ela costumava ser amada por todos que usavam seus produtos. Perguntasse a um designer dez anos atrás se ele preferiria afastar-se da Apple ou afastar-se da Adobe e tenho certeza de que a maioria teria ficado com a Adobe. Hoje, não apenas a situação se inverteu, como eu também vejo que venho ativamente me distanciando da Adobe por conta própria. Ela não entregou nada senão bloatware nos últimos cinco anos, cada versão da CS ficando mais lenta e cheia de bugs que a anterior e oferecendo muito pouca utilidade de relevo em troca. Pagam-se US$700–1.000 pelo Photoshop CS5 e ele ainda não consegue imprimir um documento em partes. A Adobe Creative Suite, de várias maneiras, se tornou o Microsoft Office para o design criativo e a indústria de desenvolvimento. Não sei como, mas eu aposto como esse foi um objetivo da companhia em alguma apresentação por aí. Missão cumprida. Então quando a Apple mantém a Adobe a um braço de distância ao mudar a seção 3.3.1 do acordo com os desenvolvedores do iPhone OS, não é de espantar que as pessoas não estejam exatamente correndo pra defender a Adobe.

Ícone do Adobe Flash PlayerO Flash tomou um caminho um pouco diferente rumo à antipatia popular e eu na verdade não culpo a Adobe por parte disso. Quando o Flash surgiu, apenas os visionários mais talentosos do design o usavam. Quando um site novo em Flash ia ao ar em 1999, cada um era como um novo DaVinci… lindas obras de arte que moviam a web de um meio contido e tipograficamente feio, para um palco central de criatividade.

Aí os anunciantes tomaram de conta.

Quando a maioria das pessoas fala mal do Flash, elas na verdade estão falando mal das propagandas. Ver vídeos em Flash no YouTube não faz seu browser travar; visitar um site de notícias com cinco anúncios chatos em Flash, todos tentando ficar em sincronia uns com os outros, é que trava.

O que a maioria das pessoas não percebe, entretanto, é que são outras tecnologias “abertas” que desempenham um papel em fazer isto acontecer, e elas continuarão assim muito depois de o Flash virar história. A tag OBJECT que gera filmes em Flash é um padrão aberto. O JavaScript que abriu a janela popup com o anúncio gritante em Flash é um padrão aberto. E o HTML/CSS que lentamente valsou o div de 300×250 exatamente sobre a p**** do parágrafo que você estava tentando ler é também um padrão aberto.

Quando o Flash se for, esse tipo de marketing excessivamente agressivo vai simplesmente ser impingido sobre você usando tecnologias “abertas” como HTML5. E sabe o que mais? Vai ser mais complicado de bloquear, pois se parece mais com conteúdo do que o Flash.

Aqui eu divago só um pouquinho…

Também me fascina quando as pessoas falam de duas coisas em particular sobre o iPhone e o iPad. Primeiro, o quanto são melhores os apps de certas companhias em relação a seus sites, como se a companhia fosse muito mais hábil ao criar apps para iPhone em vez de páginas da web. É mais agradável porque foi concebido para você fazer as coisas rapidamente. Os sites, em sua maioria, não são feitos para acelerar o término de uma tarefa. Eles são concebidos para maximizar pageviews ou, no mínimo, tempo no site (logo, maximizar o lucro). O ESPN.com não quer que você leia um artigo sobre a luta Mayweather/Mosley e então dê andamento ao seu dia. Ele quer que você leia mais dez histórias depois dessa, dê uma checada nos seus fantasy teams e compre uma jersey dos Seahawks. O Mobile.espn.com, por outro lado, é mais preocupado em fazer você entrar e sair rapidamente, pois ele sabe que você tem menos tolerância para distrações e cliques desnecessários quando está no seu telefone. A segunda coisa é quando as pessoas comentam o quanto o conteúdo parece ótimo em apps de iPad. Novamente, essa é uma reação à falta de distração, não ao formato de tablet.

Conteúdo livre de distrações e travamentos em potencial aparenta ser e é melhor. Não é o hardware, é o ambiente.

…e tento destemidamente voltar ao assunto

…o que nos traz de volta à Apple e ao papel dela na forma como obteremos informações daqui pra frente.

iPad e iPhone

Com o iPhone e o iPad, a Apple, ou muito espertamente, ou muito estupidamente, desenhou uma linha na areia e declarou-se não mais como apenas árbitra de hardware e UI de sistemas, mas também como árbitra de comércio e conteúdo. Se você quiser desenvolver ou produzir conteúdo para o ecossistema da Apple, você vai ter que fazer exatamente o que a Apple mandar. Se você quiser desfrutar dos produtos da Apple como consumidor, vai desfrutar também de todas as liberdades que ela provê e de todas as limitações que ela impõe. É como um country club. A Apple não está dizendo que você não pode jogar golfe com sua camiseta manchada e seus jeans rasgados. Ela está apenas dizendo que você não pode fazer isso no espaço dela. A Apple quer ser dona do country club mais rentável do mundo, com milhões de membros, mas ela não quer todo mundo; e aqui está a diferença entre como o retorno dela está se desenrolando e como o domínio da Microsoft acabou ficando.

A Microsoft queria 100% de penetração em todos os mercados em que entrava. O pensamento era que, uma vez você dominando um mercado, é possível impor sua vontade através dos preços, da distribuição, dos pacotes, e todo tipo de outros métodos criados para maximizar o lucro. Para a Microsoft nos anos 1980, um monopólio era um ótimo problema ao qual aspirar ter, e uma vez que as leis antitruste não eram rotineiramente aplicadas a companhias de software, a ameaça parecia imaterial. O problema com essa linha de pensamento, entretanto, foi que a lei eventualmente alcançou a Microsoft e debilitou sua capacidade de continuar operando como um monopólio.

A Apple, por outro lado — apesar de correr o risco de sofrer o mesmo fim — parece estar determinada a evitar isso. Qual a melhor forma de evitar ser um monopólio? Tenha certeza de nunca ter 100% de um mercado. Qual a melhor maneira de refrear sua penetração no mercado? Mantenha os preços um pouco mais altos do que poderia. Mantenha a oferta um pouco abaixo. Mantenha-se investindo em diferenciação com margens de lucro maiores, e não em ubiquidade com margens menores. Você se lembra de como a Microsoft investiu US$150 milhões na Apple, em 1997, para mantê-la por perto como um “SO alternativo”, na esperança de evitar a navalha do antitruste? Bem, a Apple já tem isso no Android, no BlackBerry, no Windows Mobile, na Palm e na Nokia. Ela está lutando com força agora para assegurar que será um dos dois ou três que continuarão relevantes daqui a 5–10 anos, mas o objetivo dela claramente não é estar com 100% ou até mesmo 90% do mercado. Esse nível de sucesso deixaria a companhia em maus lençóis.

É esta motivação presciente e necessariamente contida que revela a verdadeira razão pela qual a Apple se fechou mais nos últimos anos: não foi para dominar o mundo. Foi especificamente para diferenciar-se de um monte de companhias das quais ela precisa como competidoras, mas quer relegar às áreas de menores margens de lucro no mercado. A Apple vai permanecer fechada enquanto permanecer fechada der lucro para os negócios dela. Até as pessoas ou começarem a abandonar seus produtos por conta disso, ou fazerem o oposto e adotarem os produtos dela numa taxa que crie um monopólio, ela vai continuar operando do modo atual: muita inovação, grandes lucros e muito controle.

É assustador para as pessoas porque elas lembram dos males que outras companhias causaram quando alcançaram o status de monopólio, mas com Google, Microsoft, Nokia, RIM, e agora HP, todas mantendo o mercado saudável com diferentes alternativas, não há desculpas para não votar com seu bolso se você não estiver satisfeito. A Apple não vai dominar o mundo porque — se não por outro motivo — as leis dos Estados Unidos não vão deixar. Se você não quiser contribuir para o sucesso da Apple porque as atitudes dela são ofensivas pra você, então não contribua; mas não se esqueça do quanto somos sortudos por termos uma companhia tão agressivamente inovadora no leme do navio neste momento. Ou você embarca neste, ou você escolhe outro barco e vai no rumo dele. Quando o maior problema em termos de tecnologia pessoal é que a companhia líder está ficando um pouco excepcional demais, esse é um problema bom de se ter.

· · ·

Mike DavidsonA tradução deste texto — leia o original: A good problem to have — foi autorizada ao MacMagazine pelo seu autor, Mike Davidson, fundador e CEO do portal Newsvine — recentemente adquirido pela msnbc.com.

Mike, que “não tolera a intolerância de imperfeições na web”, foi o principal responsável pelo redesenho do primeiro site multimídia a suportar padrões da web — o ESPN.com, ainda em 2003.

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