Review: Kindle Paperwhite

Paperwhite---Case

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Seis meses. Seis meses depois do lançamento do Kindle Paperwhite nos Estados Unidos, finalmente a Amazon encontrou um lugarzinho no coração dela para trazer seu novo ereader ao mercado brasileiro. Disponível nas lojas da Livraria da Vila e também no Pontofrio.com[1] (bem como em quiosques especiais em shoppings no Rio de Janeiro e em São Paulo), o aparelhinho chegou custando R$480 em sua versão só com Wi-Fi, e R$700 na versão com Wi-Fi e 3G “gratuito”.

Por ter me apaixonado pelo Kindle Touch, lançado em 2011, eu estava ansioso para pôr as mãos no Paperwhite o quanto antes. Uma semana depois de finalmente tê-lo comigo, fica a pergunta: valeu a espera? A resposta não é muito simples, mas vou tentar apresentá-la.

Linhas gerais

Paperwhite---Dark-Hero

Não vou fazer você perder seu tempo: com certeza, qualquer pessoa interessada no Paperwhite já está até os joelhos com informações básicas sobre o aparelho. Sim, ele tem 2GB de armazenamento interno (boa sorte, tentando encher isso com texto); não, ele não tem mais suporte a áudio; sim, agora ele só tem um único botão, o de ligar e desligar; sim, ele mudou de cor (preto, em vez de cinza). A tela sensível ao toque, antes com tecnologia de infravermelho, agora é capacitiva, e a resolução recebeu um incremento muito bem-vindo, o que trouxe de carona três fontes adicionais para seus livros (Baskerville, Palatino e Futura, além das velhas amigas Caecilia, Caecilia Condensed e Helvetica). Recarga e transferências de arquivos são feitas através de uma porta Micro-USB tipo B, com um cabo USB 2.0 incluso — o recarregador, porém, é vendido separadamente (mas não no Brasil, meh).

Paperwhite---Side

Paperwhite---Back

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O software de todo Kindle é, resumindo em uma palavra, “utilitário”: você não vai morrer de amor por ele nem babar por alguma proeza de design. Vendo pelo lado bom, ele “some” e você fica só com o que mais interessa, os livros. A parte mais relevante do software, por sinal, é o suporte a tipos de arquivos: nativamente, o Kindle Paperwhite lê MOBI, TXT, PDF[2], KF8 e AZW; através do serviço gratuito de conversão da Amazon (que não é perfeito, mas acerta em 90% dos casos), é possível enviar HTML, DOC, DOCX, JPEG, GIF, PNG e BMP. Nada de ePub nesta lista, mas pelo menos dá pra converter arquivos deste tipo usando o Calibre[3].

Detalhes sórdidos

Paper vs. Paperwhite

Clique para ampliar e ver como o Paperwhite se sai em relação ao papel.

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Tem algumas coisas que os reviews não abordam e eu queria colocar aqui. Por exemplo, é impossível desligar a luz do Paperwhite! Por essa você não esperava, né? Pois é: por mais que você reduza até zero o controle de intensidade, a iluminação fica sempre ligada. Estranho? Certamente![4] O mais curioso é que, entre a luz no 10 e no 0, a diferença de autonomia em uma medição feita por um usuário dos fóruns da Amazon foi de apenas duas horas.

Aliás, uma coisa precisa ser dita sobre a tecnologia de iluminação do Paperwhite: ela é mágica. Um Kindle sem iluminação, mesmo num cômodo durante o dia, precisa ser posicionado de maneira inteligente para tirar máximo proveito da luz ambiente. E-ink não é preto-e-branco, é cinza-e-cinza, e qualquer sombra faz o contraste ir pro espaço. O Paperwhite elimina esse problema: se você estiver na posição certa, com a luz na intensidade 10, não vai nem lembrar que ela existe — mas isso não vai fazer diferença. Se mudar de posição e ficar de um jeito que deixaria a tela na sombra, ruim de ler, você vai notar que o contraste permanece o mesmo, pois nessa hora a iluminação faz toda a diferença, especialmente no contraste.

No light, no light in your bright blue eyes! I never knew daylight could be so violent…

No light, no light in your bright blue eyes! I never knew daylight could be so violent…

Usar a luz na potência máxima, 24, é overkill — eu duvido muito que alguém faça isso durante o uso regular. Intensidade 10 (talvez 15) para o dia e 5 para a noite é mais que suficiente para desfrutar de uma leitura agradável, confortável e proveitosa, na minha experiência.

As capas ficam bem detalhadas no Paperwhite.

As capas ficam bem detalhadas no Paperwhite.

O ganho de resolução é notável. A fonte usada nos Kindles regulares é uma slab serif chamada Caecilia (com uma variação Condensed). No Touch, ela era boazinha até o tamanho 3, mas as dimensões menores já ficavam um pouco borradas. No Paperwhite, a Caecilia é um pouco pesada demais. Muitas pessoas criticaram a adoção da Baskerville no Paperwhite, mas eu confesso que adorei… com ressalvas. É estranho, mas ela fica muito bem em tamanhos pares (como 2 ou 4), enquanto nos ímpares ela fica estranha. A Palatino, por sua vez, fica melhor nos tamanhos ímpares. Vai entender.

Palatino

Palatino

Baskerville

Baskerville

Peculiaridades à parte, minha impressão foi a seguinte: a renderização das fontes não é perfeita, mas é muito, muito satisfatória, e os traços mais finos ficam bem delicados. Você não vai ver a qualidade de uma tela Retina, com pretos superpretos e brancos superbrancos, mas o Kindle Paperwhite certamente concorreria com a impressão de um bom jornal ou paperback. No geral, a presença de serifas finas torna as páginas mais leves, especialmente na hora de se aninhar com uma história, com a tela bem pertinho do rosto — minha posição de leitura preferida.

Um motivo para deixar o texto bem pequeno é tornar a mudança de páginas menos frequente. Isso é importante por dois motivos: o Kindle consome energia de verdade quando vira uma página e o “flash” ainda é um pouco desagradável, especialmente se você estiver lendo no escuro. “Ah, mas agora tem a opção de só haver ‘flash’ a cada seis páginas”, você pode dizer. A isso eu respondo: alto lá! Pode ser assim lá nos EUA, ou numa sala com ar-condicionado. Se você estiver num ambiente um pouco mais quente, o “flash” vai ser constante, queira ou não.

Migração

Se você nunca teve um Kindle, ótimo. Se este for seu segundo aparelho, meus pêsames. Ao contrário de uma empresa como a Apple, que lucra com a venda de gadgets, a Amazon lucra com a venda de livros — em outras palavras, ela quer que você compre só um Kindle ao longo da vida e o encha de livros. O resultado prático disso é que trocar de Kindle é um porre.

Deixar eu dizer de novo: trocar de Kindle é um saco.

Consegui um Kindle novo!… Agora tenho que baixar tudo de novo. :(

Consegui um Kindle novo!… Agora tenho que baixar tudo de novo. 🙁

Kudos para a Amazon por oferecer um serviço gratuito e eficiente de armazenamento, mas a política dela para quem está no seu segundo Kindle não poderia ser pior. Sim, todos os seus livros e documentos pessoais ficam na nuvem, e quando você os baixa para o novo aparelho, eles vêm com as anotações e até no ponto em que você parou — pelo menos foi assim comigo, mas sua milhagem pode variar. Isso funciona bem por demais.

O chato é que você tem que baixar tudo um por um no aparelho novo. Eu tinha centenas de itens no meu Touch, mais de 700, todos indexados e guardadinhos para sacar sempre que eu quisesse pescar alguma informação. Dá pra transferir tudo via USB, de um aparelho pro outro? Segundo a Amazon, não, e pelo que vi por aí, fazer isso é algo meio “por sua conta e risco”, podendo corromper arquivos e requerer um reset no aparelho.

Deveria ser mais simples? Sim: era pra eu poder apertar um botão e tudo o que eu tinha num aparelho antigo ser trazido pro novo. Tem espaço para melhorar.

Vale mencionar ainda a questão da indexação. Se você estiver no seu segundo Kindle, vai querer trazer seus livros pra estante nova, certo? Pois se prepare para esperar algumas horas até eles serem indexados pela ferramenta de busca local. Dependendo do tamanho dos arquivos, pode levar mais que um pernoite e isso consome uma bateria medonha. Eu apostaria que, num ereader, deve ser a coisa que mais gasta energia, talvez até mais que conexão 3G.

Ou seja, se sua primeira carga durar apenas uma semana, não se desespere: depois que estiver tudo salvo no aparelho e devidamente indexado, ele provavelmente só vai precisar de alimentação depois de um mês ou dois, dependendo do quanto você lê todo dia. A Amazon promete oito semanas com meia hora de leitura por dia e Wi-Fi desligado, mesmo com a luz acesa na potência 10 (relembrando: o máximo é 24).

Minha experiência pessoal nesta primeira semana de uso foi beeem diferente desse cenário: baixei uns 150 arquivos, todos foram indexados (entre eles algumas montanhas, como O Conde de Monte Cristo e a Bíblia), li como sempre, sem medida (vários artigos via Readability, dois livros pequenos e 40% de Anna Karenina — que eu recomendo), deixei a luz sempre ligada pelo menos no 5, usei Wi-Fi apenas ocasionalmente, e em sete dias cheguei aos 10–20% finais da carga[5]. Vou precisar de tempo para fazer mais testes (algo como ler a trilogia de Jogos Vorazes numa carga só), mas por ora estou satisfeito.

Put a case on it

Paperwhite---Case-front

Uma novidade bem legal no Kindle Paperwhite é a case oficial da Amazon, feita de couro e plástico emborrachado, que conta com um fecho magnético o qual ativa de desativa o aparelho automaticamente. Com ela, o único botão que restou no aparelho fica obsoleto.

A construção é ótima, o acabamento é bem trabalhado e a textura do couro é bem agradável, dando ares premium ao produto — o que é o mínimo, dado que ela custa R$170!

Uma grande desvantagem (além do preço) é o peso: quase tão pesada quanto o próprio Kindle, ela deixa o manuseio um pouco menos agradável. Pior que é tão difícil de colocar e remover o aparelho que você provavelmente nunca mais vai querer tirar, depois que finalmente conseguir pôr — é um parto.

Que você vai precisar de uma case, eu não tenho dúvida — a tela do Kindle Paperwhite não é de Gorilla Glass e, se ele ficar na sua mochila, é arriscado acabar mal. Se você vai usar esta case, já é uma questão do quanto você considerar que o acabamento chique e o fechamento magnético valem. Confesso que caiu uma lágrima quando eu vi o preço, mas pelo menos meu Paperwhite não vai acabar com uma quina machucada como o Touch (a case da Belkin que eu usava era ótima, mas não tinha proteção nos cantos) e o botão de liga/desliga, do qual eu nunca gostei, agora é só um recurso para emergências.

Fim das contas

✔ PRÓS

  • A tela é excelente, tanto em resolução quanto em luminosidade.
  • Tecnologia de touchscreen capacitiva deixa a operação precisa e agradável.
  • Os serviços da Amazon (nuvem, loja, apps) são fantásticos.
✘ CONTRAS

  • Tem muitos recursos a menos em relação ao antecessor, o Kindle Touch (suporte a áudio, swipe vertical para navegar entre capítulos, menos memória), dando a sensação de ser um “sidegrade” em vez de um “upgrade”.
  • Preço no Brasil é um pouco amargo para um produto que, nos EUA, é quase considerado descartável.

Paperwhite---Other-Hero

O Kindle Paperwhite é um ótimo produto, mas eu devo confessar que ele não me fez morrer de amor como o Touch tinha feito. Se você nunca teve um Kindle (ou tem um dos aparelhos anteriores ao Touch), o Paperwhite é fantástico, não tem nem o que pensar. Este é O Kindle™ para ter e amar.

Já se você for dono de um Touch e estiver feliz, não se dê ao trabalho, pois mesmo com a resolução superior e a iluminação, o Paperwhite não vai mudar a sua vida — ele vai é dar trabalho durante a migração e você vai perder recursos, além de ter que lidar com uma interface que é, em alguns detalhes, inferior. Só pense em fazer esse “sidegrade” se quiser muito (mas MUITO mesmo) ler no escuro.


  1. Isto é, quando está em estoque, o que não é o caso neste momento.  ↩
  2. Se você estiver em busca de um “leitor de PDFs”, não recomendo o Kindle. O gadget da Amazon lê esses arquivos, bem verdade, mas apenas como quebra-galho, a experiência não é nada, nada satisfatória. Para esta função, vale muito mais a pena investir num tablet tradicional — um iPad mini, por exemplo.  ↩
  3. Se você pretende fazer seus ebooks a partir de ePubs gerados pelo Pages, preste muita atenção a esta dica! Ao converter um ePub saído do editor de textos da Apple, na aba Search & Replace do Calibre coloque a expressão style="white-space:pre-wrap" e já a deixe salva para sempre que precisar.  ↩
  4. Não sou engenheiro, mas acho (ACHO!) que a Amazon usou LEDs que, em potência baixa, consomem tanta energia quanto o infravermelho do Kindle Touch — o qual ficava ligado o tempo todo e nem por isso drenava a bateria. Faz sentido? Na minha cabeça, faz.  ↩
  5. Quer saber a porcentagem da carga no seu Kindle? Compre um Kobo! Brincadeiras à parte, existe uma gambiarra para ver a porcentagem. Digite ;dm na busca do Kindle e ele vai gerar quatro logs; um deles, o all_system_logs, vai mostrar algo como capacity=x% se você fizer uma busca por “battery”. Kudos para Julius Cesar, usuário dos fóruns da Amazon, por compartilhar essa informação tão… inusitada.  ↩

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