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Opinião: quando o “simplesmente funciona” acusa a sua idade

Antes de mais nada, já deixo aqui meus panos quentes: eu não acompanho a Apple há tanto tempo quanto possa parecer — ora, já existiam PowerBooks em 1991, antes sequer de eu nascer! Mas como muitos que lerão este artigo, comecei nos tempos do Mac OS X 10.4 Tiger, vendo de perto diversos lançamentos, sucessos, problemas e, claro, fracassos da companhia em diversas áreas.

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Posso dizer, por exemplo, que pessoas impressionadas com o primeiro gesto de pinça para dar zoom na tela de um iPhone relataram a respeito disso por aí na mesma proporção dos usuários que ficaram enlouquecidos com o horror que eram os mapas da Apple no dia de seu lançamento, junto do iOS 6. Enfim, todas as empresas por aí têm seus momentos bons e ruins em público, de forma que as pessoas que os testemunharam têm o direito de expressar suas opiniões a respeito como quiserem.

Apple Beachball

Tem gente sentindo falta dos tempos em que só precisávamos nos preocupar com bolas de praia.

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Os problemas surgem quando uma opinião acaba sendo extrapolada pelo mundo, muitas vezes em aspectos que fogem do contexto. Foi o que aconteceu logo nos primeiros dias deste ano, com Marco Arment.

Criador de serviços populares como o Instapaper e apps como o Overcast (os dois já ganharam bastante destaque na App Store), Arment virou notícia ao redor do mundo ao escrever um curto texto a respeito da recente queda na qualidade de software da Apple por conta de alguns problemas ocorridos com atualizações — talvez o iOS 8.0.1 e o Safari 8.0.1 tenham sido os mais evidentes, mas usuários na Europa também passaram por apuros na App Store durante os reajustes nos preços de aplicativos efetivados nesta semana.

Arment é um desenvolvedor. Suas palavras foram direcionadas para a comunidade com a qual ele trabalha e que, como todos que estão no mesmo ramo sabem, tecem diversas críticas à Apple diariamente — com conhecimento de causa, afinal eles trabalham com a empresa diariamente. Mas graças a uma citação do seu texto no Business Insider, montou-se uma celeuma em torno da sua opinião que chegou a canais de TV americanos como CNN e CNBC.

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Não surpreendentemente, logo no dia seguinte, ele se arrependeu do que escreveu. Mas até hoje outros estão discutindo a respeito do que Arment chamou de “terreno elevado funcional”, de onde a Apple desceu um pouco no decorrer de alguns problemas noticiados na segunda metade do ano passado. A agenda anual de novos sistemas operacionais para Macs e iGadgets já era um desafio, mas agora é acompanhada de uma preocupação ainda maior com segurança e privacidade: a necessidade de estar alinhada com serviços na nuvem e a entrada em novos mercados (weareables, automóveis, soluções domésticas e outros ainda por vir).

O alarmismo em torno do que foi escrito por Arment mostra que o assunto já é bastante pertinente de ser abordado há algum tempo, mas poucos se arriscariam em levar as críticas à proporção em que foram. A principal questão a ser respondida é: o quão boa (ou ruim) está a qualidade de software na Apple?

Analisando o ciclo de lançamentos

Ícones do iOS 8 e do OS X Yosemite

Entre 2001 e 2009, a Apple trouxe ao mercado sete versões do Mac OS X em ciclos que levavam, em média, 20 meses entre um lançamento e o outro. Os usuários e desenvolvedores mais experientes com Macs nunca teceram extensas discussões a respeito do quão ideal era essa estratégia, mas nenhuma dessas versões jamais foi livre de bugs e certos usuários comumente registravam alguns apuros: no meu caso, por exemplo, o único kernel panic (equivalente à tela azul da morte, do Windows) que eu tive em mais de seis anos usando Apple aconteceu nessa época, com o meu primeiro MacBook.

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Minha experiência ruim não veio à toa. Foi justamente com o Leopard, a versão do Mac OS X que a Apple teve mais problemas para colocar no mercado após dois anos e meio em que ela teve de fazer sua primeira grande divisão de esforços para colocar o iPhone no mercado. É aqui onde muitos consideram que o comportamento da empresa com qualidade de software começou a mudar — se eu não me engano, um dos nossos estimados colegas proferiu pela primeira vez a frase “a Apple não é mais a mesma” justamente nessa época.

Desde então, a cada ano, um novo iPhone foi lançado. E com ele sempre vinha uma versão nova do iOS, claro. A Apple cresceu para manter este ritmo, e quando Craig Federighi veio para substituir Bertrand Serlet no comando da engenharia de software, a principal exigência foi levar o processo de desenvolvimento do Mac OS X para o mesmo ritmo do iOS. Desde o Lion, a Apple lançou novidades para as duas plataformas a cada 13 meses, em média.

O ponto principal que Arment e outros levantam não está errado: tecnicamente, é extremamente difícil entregar dois produtos de tamanha magnitude e alcance de mercado, como os atuais OS X e iOS, numa agenda de 12-13 meses. Por outro lado, em defesa da Apple e considerando o que executivos já anunciaram antes, eu entendo que o atual ciclo possui o *potencial* (não *garantia*, que fique bem claro) de modernizar incrementalmente suas plataformas de forma mais consistente e gradual com o tempo. Não é muito diferente do que vemos o Google fazer com seus produtos, assim como muitas das empresas web do mercado também fazem e, pasme, até gigantes de maior tradição como a Microsoft, IBM e outras.

Em poucas palavras, toda a indústria está se rendendo ao modelo ágil de desenvolvimento de software, de forma que o ritmo adotado pela Apple é a sua reação para esta tendência e, principalmente, para o feedback de nós, usuários. Hoje nós reclamamos que a empresa está indo rápido demais em software, mas ao mesmo tempo esses lançamentos acompanharam os melhores produtos de hardware que ela já produziu. Há quase sete anos, era um outro cenário: a diferença entre os ciclos do iOS e do Mac OS X deixava a falsa impressão de que o Mac estava sendo negligenciado no meio do caminho e perdendo a atenção.

No YCombinator, após Arment publicar sua opinião sobre o assunto, conseguimos encontrar engenheiros da Apple comentando anonimamente a respeito do tema e, apesar de existir quem expresse a necessidade de se alertar a alta direção sobre uma revisão do foco e das prioridades de lançamento, há um consenso de que Federighi trabalhou nas revisões mais importantes que a Apple precisou fazer em sua equipe de engenharia. O Tiger e o Leopard, no final dos seus ciclos de vida, foram versões estáveis do Mac OS X. Mas neles também havia gigabytes de componentes com pelo menos dez anos de existência que eram velhos, incluindo tecnologias antigas do QuickTime e do UNIX que hoje deixamos de usar. Além disso, no passado tivemos alguns recursos prometidos entregues a usuários finais após adiamentos, longas esperas em versões beta, ou simplesmente riscados do caminho — Leopard, Boot Camp e ZFS foram exemplos claros desses três cenários, respectivamente.

Mac OS X Snow Leopard e Mac OS X Server Snow Leopard

Mac OS X Snow Leopard: entregue no prazo em 2009, mas sem algumas promessas.

Atualmente, com a autonomia e o desempenho que até o mesmo o hardware menos potente da Apple consegue atingir, tamanha bagagem não encontraria lugar. As principais revisões entregues com o Snow Leopard e o Mavericks (na minha opinião, o Mavericks é a melhor versão do OS X já produzida pela empresa) foram importantes para os produtos que estão aí à venda. Logo, existe um trabalho bom sendo realizado que, de tempos em tempos, pode gerar resultados com mais consistência e regularidade, sem fugir dos prazos.

Mas como tudo na vida, a nova estratégia da Apple também está cobrando o seu preço.

Conforme dito acima, potencial não se traduz em garantia. Afinal, as recentes reclamações de usuários com Wi-Fi no OS X Yosemite, somados aos problemas e equívocos nas funções de fotografia do iOS 8 e os furos já mencionados com atualizações de sistema e manutenções na App Store não vieram à toa. John Gruber fez uma colocação importante no Daring Fireball ao opinar sobre esses casos: a fuga do risco de ter sua estratégia de desenvolvimento considerada devagar pela mídia fez a Apple entrar noutro caminho ruim, fazendo usuários deixarem de se sentir completamente estáveis.

Fotos no iCloud.com

Fotos no iCloud.com. Ainda falta ver como ficará a sua parte no Mac…

Quando se tem muita coisa sendo trabalhada e colocada no ar em meio a isso, é aceitável ter esse tipo de opinião entre usuários dentro de uma comunidade. Podemos não ter convivido com os problemas de antes e ainda estar aturando os atuais, mas isso não significa que todo mundo deve ignorar que eles existem. Afinal de contas, estamos falando de OS X Yosemite e iOS 8 e, enquanto você está lendo, já temos os substitutos deles dentro do forno, lá em Cupertino.

Todo cuidado é pouco quando se trabalha com software nessa magnitude. Mesmo que um problema mínimo afete 0,1% da base instalada do OS X (que representa, ao todo, cerca de 5% dos computadores ligados no mundo), já devemos esperar quase 100 mil reclamações, no pior cenário. No iOS, esses números aumentam e a coisa fica ainda mais perigosa. Fica menos admissível, por exemplo, que serviços como os mapas da Apple e o MobileMe venham ao mundo da forma como vieram.

Mas os eventos recentes também não vieram à toa. Com o Yosemite e o iOS 8, a Apple também aposta em tecnologias pesadas que chegaram para ficar. Continuidade, iCloud e o novo modelo de extensibilidade de aplicativos são críticos para o que o futuro nos reserva, especialmente com o Apple Watch, que fará uso enorme dos três. Se você considerar que parte dos principais bugs que comentamos e se tornaram notoriedade nos últimos meses foram causados por decisões tomadas em torno desses pilares, há de se considerar que parte da problemática em se estabilizar as plataformas de software não deve ter toda a sua culpa atribuída ao processo de desenvolvimento. Um produto grande para o qual elas são dependências ainda não está pronto. Enquanto ele não estiver, podem ocorrer iterações no OS X e no iOS com riscos de comprometer a estabilidade e a qualidade.

Não é difícil mensurar o quanto este tipo de cenário pode chegar a interferir na credibilidade de uma companhia que possui uma reputação a manter do tamanho da Apple. Imagine só: já havia mais pessoas de olho na Apple em meados de 2007, com a expectativa em torno do iPhone, do que existiam antes de Steve Jobs retornar ao comando pela segunda vez, em 1996. O mesmo acontece hoje em relação a 2007, como pelo menos mil vezes mais desenvolvedores interagindo com a empresa diariamente e centenas de milhões de usuários, clientes, especialistas e acionistas. Se a estabilidade e a qualidade em torno de um ritmo mais rápido de entrega não é reforçada, ela fica cada vez mais entregue aos riscos. Então, quando uma atualização vai ao ar por engano, a única coisa que “simplesmente funciona” é a enxurrada de reclamações ladeira abaixo. Por mais que não seja necessário se render a um evento desses no primeiro momento, nessas horas a tradição também não vai ajudar muito.

O meio termo

Inovar rapidamente e garantir maior qualidade não são aspectos com os quais devemos discutir ao ponto de competir a respeito e escolher o melhor. Precisamos dos dois e, como Gruber apontou, não é fácil balancear entre eles. Mas também é importante, necessário e crítico para se levar dispositivos e serviços para as mãos de milhões de pessoas de forma competente.

Também é importante ter em mente que problemas sempre surgirão — e ao ponto de se constituir uma linha do tempo ao redor de todos eles. Até o momento, deixando de lado a rápida resposta em corrigir updates quebrados e consertar uma ou outra decisão de projeto, a Apple nunca reagiu às críticas de Arment e outros com alarmismo e nem deve começar agora. Ainda estamos a alguns meses de vermos o Apple Watch ver a luz do dia nas lojas, sem uma data de lançamento definida. Frente ao que temos visto, é bem provável que várias arestas em torno no OS X e do iOS ainda precisem ser aparadas para isso acontecer.

Apple Watch ao lado de um iPhone 6

O Apple Watch pedirá ambientes menos agressivos, no Mac e no iOS, para se tornar um sucesso.

Olhando para o longo prazo, é bom que elas sejam. Assim como muitos na nossa comunidade, eu acredito que a Apple esteja no caminho certo e que lançamentos menores focados em melhorias profundas na tecnologia e correções gerais estão a caminho, tanto para os Macs, quanto para iPhones, iPads e iPods. Quando a Maçã começar a aparecer em carros, pulsos e casas por aí no decorrer de 2015, é na interoperabilidade com os produtos mais sólidos no mercado que essas novas soluções deverão se basear.

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