A Apple sempre se orgulhou de ser uma empresa que luta pelas minorias e pelos direitos de todos serem quem são, sem distinção de cor, gênero, sexualidade ou qualquer outro aspecto. Entretanto, todos nós sabemos que alguns fatores podem ser mais fortes que outros — perder mercado no maior país do mundo, por exemplo, pode ser um fator bem convincente.
Digo isso porque nosso amigo Guilherme Rambo, do 9to5Mac, andou dando uma olhada no código do watchOS e fez uma descoberta, digamos, desagradável:
The Apple Watch pride face is hardcoded to not show up if the paired iPhone is using the Russian locale pic.twitter.com/vEP8XquYsP
— Guilherme Rambo (@_inside) 31 de agosto de 2018
O mostrador “Orgulho” do Apple Watch é codificado para não aparecer caso o iPhone emparelhado esteja com a localização na Rússia.
Se vocês bem lembram, a Apple lançou o mostrador “Orgulho” para seus reloginhos na última WWDC como uma homenagem ao movimento LGBT+ — da mesma forma que já tinha feito em anos anteriores, lançando pulseiras com a temática do arco-íris e outras ações do tipo. Bom, aparentemente nossos amigos russos realmente não podem ter acesso ao mostrador, infelizmente.
Não é preciso lembrar que a Rússia têm adotado, ao longo dos anos, políticas cada vez mais homofóbicas. Relações entre pessoas do mesmo sexo são classificadas na lei como “não-tradicionais” e uma lei implementada por lá em 2013 impede o que eles chamam de “propaganda gay” — ou seja, a simples defesa dos direitos LGBT+ por lá pode levar à cadeia. E nem pense em tentar demonstrar algum afeto com outra pessoa do mesmo sexo em público (não sou eu que estou dizendo, foi o Itamaraty). A situação é realmente horrorosa.
Impossível dizer, a esse ponto, se a decisão da Apple em retirar o mostrador do Apple Watch em território russo tem a ver com alguma ordem do Kremlin, se eles simplesmente fizeram isso com medo de perder terreno no (notoriamente homofóbico) mercado russo ou se, em uma perspectiva mais altruísta, a decisão tem a ver com a própria segurança dos seus usuários no país.
O fato não é triste por si só — ele só reflete uma situação muito pior, e que (infelizmente) não mostra perspectivas de mudar num futuro próximo. Não custa sonhar, entretanto.