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Contratação de executivo acusado de misoginia é questionada por funcionários da Apple

Antonio García Martínez já comparou mulheres a um “tipo de bagagem inútil que você trocaria por uma caixa de balas ou um galão de combustível”
Antonio García Martínez

Anteontem (10/5), falamos aqui sobre a chegada de Antonio García Martínez, autor e ex-gerente de produto do Facebook, à Apple. Acontece que uma parte da força de trabalho em Cupertino não está nada satisfeita com a notícia — e por fatores que são realmente deveras desagradáveis.

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De acordo com o The Verge, um grupo de funcionários da Apple lançou uma petição solicitando que a empresa investigue declarações passadas de García Martínez, consideradas misóginas e racistas. A maioria das citações polêmicas está no livro “Chaos Monkeys”, escrito pelo executivo em 2016 sobre a sua passagem pelo Facebook — e que tornou-se um sucesso de vendas nos Estados Unidos, diga-se.

A petição, endereçada ao vice-presidente sênior de software e serviços de internet Eddy Cue (a quem García Martínez será subordinado) e à equipe de pesquisa e desenvolvimento da Maçã, destaca algumas passagens do livro do executivo. Abaixo, listamos algumas delas [tradução livre nossa]:

Grande parte das mulheres na Bay Area são afáveis e fracas, mimadas e ingênuas (apesar de dizerem ser sofisticadas) e, no geral, ridículas. Elas se vangloriam do seu feminismo e alardeiam incessantemente sua independência, mas na realidade, bastaria estourar uma praga epidêmica ou uma invasão estrangeira e elas se tornariam precisamente aquele tipo de bagagem inútil que você trocaria por uma caixa de balas ou um galão de combustível.


Chander era uma contratação recente vinda do Friendster, onde ele dizia ter apagado os “incêndios técnicos” que foram resultado do crescimento rápido [da empresa]. Da moribunda rede social, ele trouxe consigo uma nova equipe de engenheiros, e eles formaram o núcleo da sua máfia pessoal. Ele gerenciava quase sempre sob intimidação. Em suas camisas pólo mal-ajustadas de poliéster, com paletas de cor roubadas do final dos anos 1970, ele me lembrava dos aborrecidos motoristas de tuque-tuque na frente do Connaught Place, em Nova Déli, que sempre cobravam cem rúpias a mais para descer a rua até Paharganj. “Então, tem algo que nós podemos fazer em termos de compensação, Antonio?”, perguntava Chander em seu forte sotaque indiano.


Poucas mulheres poderiam ser chamadas de convencionalmente atrativas no Facebook. As poucas que existiam por lá raramente se vestiam exibindo sua feminilidade com vestidos e sapatos de salto, se é que faziam isso. Numa sala de reunião, uma participante totalmente formada em “O Segundo Sexo” era um anjo da morte tão claro quanto um revólver 38 de cano curto. Gokul me jogou um sorriso desconcertado, e saiu pela porta no momento que eu me sentei. Eu olhei através da mesa. Se a intenção do visual dela era me desarmar, ela precisaria ou de mais peitos ou de mais charme.

Nos anos subsequentes à publicação do livro, García Martínez se defendeu de algumas das acusações. Sobre a primeira citação aqui listada, por exemplo, ele afirmou que trata-se de uma impressão generalizada no Vale do Silício e que seria importante colocar o parágrafo dentro do seu contexto — que sua intenção, na realidade, seria contrastar essa “grande generalização com a realidade das mulheres pelas quais ele estava se apaixonando”. No The Verge, é possível ler um trecho muito maior do capítulo no qual a citação está contida, para quem quiser analisar a situação por conta própria.

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O fato é que, para os funcionários da Maçã que lançaram a petição, as declarações de García Martínez são inaceitáveis. A engenheira de infraestrutura Devon Lindsey, que trabalha na Apple, compartilhou sua indignação no Twitter:

É muito exaustivo ser mulher na área de tecnologia. Sentar frente a frente com homens que pensam que, por causa do meu gênero, eu sou afável e fraca e no geral ridícula.
Nem vale a pena dizer que eu trabalhei incansavelmente por cada conquista que eu tenho.

A petição lembra que as declarações de García Martínez vão totalmente de encontro com o compromisso da Apple por mais inclusão — vale lembrar que, no último relatório de diversidade publicado pela Maçã, a empresa se vangloriou de números inéditos na contratação de minorias e grupos sub-representados, reforçando o compromisso de continuar reforçando essa política.

Nas palavras dos funcionários:

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Nós estamos profundamente perturbados com essa contratação e o que ela significa para o compromisso da Apple de mais inclusão e diversidade, além dos impactos reais e imediatos para aqueles e aquelas trabalhando perto do Sr. García Martínez. Isso tudo põe em xeque várias partes do nosso sistema de inclusão na Apple, incluindo painéis de contratação, checagem de antecedentes e nosso processo para garantir que nossa cultura de diversidade é forte o bastante para resistir a indivíduos que não compartilhem dos nossos valores inclusivos.

[…] Nós exigimos uma investigação sobre como suas visões já publicadas sobre mulheres e pessoas não brancas foram negligenciadas ou ignoradas — bem como um plano claro de ação para impedir que isso ocorra novamente.

Inclusão não se trata apenas de quem nós contratamos, mas também de como nós apoiamos todas as pessoas que já trabalham na Apple. Considerando que o Sr. García Martínez tem um histórico de publicar comentários explicitamente racistas e misóginos sobre ex-colegas, nós nos preocupamos que sua presença na Apple crie um ambiente de trabalho inseguro para nossos e nossas colegas que estarão sob o risco de assédio público e bullying privado. Nós temos o direito de perguntar como a equipe de Pessoas pretende mitigar esse risco.

Além da investigação sobre as declarações, os signatários da petição pedem também que García Martínez (caso sua contratação seja mantida) ou qualquer pessoa que compartilhe das suas opiniões, classificadas como preconceituosas, não se envolvam em futuros processos de contratação, entrevista ou avaliação de desempenho na Apple.

A Apple ainda não se pronunciou sobre o caso, mas ficaremos de olho — considerando o barulho que a petição está fazendo, é possível que saibamos mais sobre a situação em breve.

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