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Foto aérea do Apple Park
Droneandy / Shutterstock.com

Quem manda mais: a Apple ou a cidade de Cupertino?

Qual é o tamanho da influência da Apple sob a cidade?

Desde os seus primeiros anos, a Apple sempre manteve a sua sede localizada no Vale do Silício (Califórnia, Estados Unidos) — mais precisamente, na pequena cidade de Cupertino, que tem pouco menos de 60 mil habitantes.

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Existem diversos motivos os quais explicam, depois de todos esses anos, por que a Apple se manteve firme às suas raízes e continuou a fincar a sua bandeira em Cupertino. Além de beneficiar muitíssimo a cidade, provendo empregos e oportunidades aos seus moradores, a própria Apple, obviamente, também se beneficia com a sua estadia por lá.

Afinal, qual cidade não gostaria de sediar uma empresa como a Apple? Bom, essa pode não ser a mais fácil das perguntas. Apesar de ter uma grande influência positiva sobre a cidade, alguns problemas podem surgir com a instalação de uma companhia tão grande como a Apple em uma cidade do porte de Cupertino.

Neste artigo, vamos explorar um pouco os motivos de a Apple continuar a sediar suas operações em por lá, o que a cidade ganha com isso e que tipo de poder a Apple exerce sobre o que acontece no local.

Cupertino faz parte da sua história

É comum pensarmos que a Apple foi fundada em Cupertino, mas na verdade, a empresa teve a sua constituição na cidade de Los Altos. É por lá que se localiza a famosa garagem pertencida aos pais de Steve Jobs, onde a empresa deu seus primeiros passos. Não é de se espantar que, hoje, a casa é um local histórico e não pode faltar em nenhuma viagem do MM Tour. 😜

MM Tour V na garagem da Apple
A galera do MM Tour V em frente à famosa garagem

Contudo, o crescimento da Apple rapidamente excedeu o espaço físico da garagem, e a empresa abriu o seu primeiro escritório em Cupertino, em 1977 — apenas um ano após a sua fundação. Na época, sua equipe trabalhava no desenvolvimento do Apple II.

Conforme a empresa foi crescendo, ela foi necessitando de cada vez mais espaço. A partir de 1978, a Maçã começou a alugar, comprar e até construir diversas propriedades em Cupertino — aumentando cada vez mais a sua presença na cidade.

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A companhia continuou expandindo suas operações por lá em pequenas porções até 1992, quando iniciou a construção da sua famosa sede: Infinite Loop. O complexo possui 6 prédios interconectados, tem quase 8 mil metros quadrados e foi usado como sede oficial da Apple até a recente inauguração do Apple Park. O complexo, contudo, continua em pleno funcionamento, mesmo após a mudança.

Sede da Apple em Cupertino
Antiga sede da Apple, em 1 Infinite Loop

Inaugurado em 2017, o Apple Park, com certeza, é o projeto mais ousado da empresa. Jobs apresentou a ideia de um edifício circular pela primeiríssima vez em uma reunião do conselho municipal de Cupertino — reunião gravada em um vídeo histórico que pode ser assistido até hoje.

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Vista aérea do Apple Park

O complexo ocupa uma área de 1,5km², e a sua arquitetura peculiar, batizada por muitos de “espaçonave”, foi obra do renomado arquiteto Norman Foster. Custando cerca de US$5 bilhões, é o terceiro prédio mais caro construído no mundo. Apenas uma empresa com extrema influência conseguiria fazer algo do tipo, não?

Investimentos na cidade

Bom, não é difícil de imaginar os motivos pelos quais a prefeitura de Cupertino estimula a estadia da Apple na cidade. A grande influência da companhia sobre ela se transmite em diversos benefícios para o local.

A começar pelo incentivo econômico. Como bem sabemos, a Apple é uma empresa gigantesca e emprega um grande contingente populacional na cidade. Em 2015, 40% da população economicamente ativa da cidade trabalhava para a Maçã. Isso, no entanto, também pode ser um ponto negativo.

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Outro fator importante a ser considerado é a contratação de trabalhadores de fora da cidade — algo que estimula ainda mais a economia local e aumenta a procura por estadia, comércio, alimentação e serviços na região.

Ultimamente, a Apple também vem investindo cada vez mais na compra de imóveis em Cupertino, movimentando ainda mais o seu mercado imobiliário. Em setembro passado, conforme noticiado pelo The Mercury News, a empresa arrematou 5 prédios de escritórios por US$450 milhões — uma das maiores compras de propriedades por lá.

O que vai, volta

Cupertino, por sua vez, também faz a sua parte para manter a Apple em seu território. Em 2019, a cidade já havia concedido mais de US$70 milhões à Apple em benefícios fiscais nos últimos 20 anos. Para uma empresa desse tamanho, isso pode parecer pouco; mas para uma cidade da escala de Cupertino, isso é um valor enorme.

A razão para todos esses abatimentos data desde 1997, quando Jobs, recém-retornado a uma Apple à beira da falência, fez um acordo de benefícios fiscais com a prefeitura, o qual garantiria que a empresa poderia continuar atuando em seu estágio de crise. Na época, os valores acordados não pareciam muito, já hoje…

Fato é que os acordos entre a gigante e a própria cidade de Cupertino só serão renegociados em 2033. Até lá, ainda há muitos benefícios fiscais a serem desfrutados pela Maçã.

Causa e efeito

O crescimento estrondoso da empresa também refletiu diversas mudanças na cidade — especialmente na última década, com a construção do Apple Park.

Antes mesmo de a sua construção estar completa, noticiou-se um enorme boom na abertura de lojas, cafés e restaurantes em suas vizinhanças, assim como outros empreendimentos imobiliários. Todos, é claro, esperando atender à demanda dos 12-14 mil funcionários que, em breve, trabalhariam ali todos os dias.

Em 2011, logo após Jobs apresentar a proposta à Câmara Municipal, os preços dos imóveis em Cupertino e nas cidade próximas praticamente dobraram, com aumentos de 15-20% ao ano. Alguns veem isso com bons olhos; outros, não.

Em 2017, pouco antes da inauguração do Apple Park, uma reportagem do New York Times revelou as mudanças e influências positivas/negativas que a nova sede “espaçonave” da Apple estava surtindo nos seus arredores.

Não obstante, a nova sede da empresa não chama apenas trabalhadores para a região como também turistas. Apesar de a entrada só ser permitida no Apple Park Visitor Center, diversos aficionados de tecnologia e/ou arquitetura vão até as proximidades do campus apenas para pegar uma pequena visão da “espaçonave”. Eu, particularmente, me incluiria nesse grupo.

MM Tour VIII no Apple Park
Participantes do MM Tour VII no Apple Park Visitor Center

Relações com a população

Pois bem. Que a localização da Apple em Cupertino beneficia a economia da cidade nós já sabemos, mas será que a própria população de lá fica satisfeita com essa estadia?

Durante sua construção, o Apple Park foi motivo de orgulho de muitos moradores da cidade, inclusive da então prefeita Savita Vaidhyanathan que, ao visitar o prédio em obras, disse:

Eu vi o teatro subterrâneo de 1.000 lugares [Steve Jobs Theater] e o seu telhado de fibra de carbono. A cobertura foi feita em Dubai, transportada e montada aqui. Eu amo que está aqui e posso me gabar disso.

Alguns moradores, entretanto, reclamaram bastante durante a construção do complexo por conta da sujeira, do barulho e das constantes interrupções no trânsito. A Apple, em contrapartida, sempre procurou ser o mais solícita possível com a população. Uma moradora próxima que teve seu carro sujo de poeira, por exemplo, recebeu certificados para lavagem do veículo por conta da empresa. No entanto, mesmo assim, alguns moradores decidiram por melhor se mudar para outros locais por conta dos problemas enfrentados durante a obra.

Outra polêmica envolveu a construção de um canteiro central arborizado na estrada Homestead, uma das vias subjacentes ao Apple Park. A empresa visava diminuir o barulho causado pelo tráfego de veículos com o canteiro, mas os moradores se opuseram à ideia, visto que ele eliminaria uma das pistas e possivelmente pioraria o tráfego da via.

Além disso, durante o desenvolvimento do projeto do Apple Park, o qual envolveu as mais deliberadas etapas de estudos e análises tanto do prédio quanto da região, a Apple promoveu mais de 110 encontros com a comunidade para receber feedbacks sobre o projeto. Ou seja, demonstrando sempre a sua intenção de atender às preocupações da população — pelo menos, até onde isso é viável em um projeto desse tamanho.

Cidade ou empresa?

Contudo, apesar dessa relação de troca, alguns ainda problematizam o crescimento excessivo da Apple na cidade. Afinal de contas, em alguns casos fica difícil distinguir a diferença entre o que é empresa e o que pertence a Cupertino.

Muitos temiam que, com o crescimento da Apple, os limites entre a cidade se tornariam cada vez menos delimitados. Apesar de hoje concentrar grande parte dos trabalhadores em um só prédio (ou em home office, durante a pandemia da COVID-19), a companhia ainda ocupa diversos outros edifícios espalhados pela cidade e nas regiões vizinhas.

Desde a apresentação dos planos do Apple Park, em 2011, até a aprovação deles, em 2013, diversas pessoas se mostraram preocupadas com os efeitos que um projeto tão grande surtaria na região. Uma reportagem do Los Angeles Times levantou diversas questões que poderiam ser preocupantes para o bem-estar da cidade e da população com a construção do complexo.

A principal delas seria a dependência econômica da cidade com a empresa — uma vez que, como dissemos anteriormente, a Apple emprega um grande contingente populacional da cidade e ainda provê muitos outros benefícios (apesar dos poréns).

Em décadas passadas, a Maçã ainda era uma empresa muito diferente (e bem menor) da que é hoje, e especialistas temiam que, um dia, ela pudesse simplesmente quebrar e levar a cidade às ruínas. Muitos acreditavam que Cupertino deveria se diversificar economicamente, a fim de não depender demais dos impostos pagos pela Apple.

A dependência econômica da cidade com a Apple significaria que a Cupertino teria que fazer de tudo para conseguir manter as operações da empresa sob seu solo. Ou seja, quem estaria mandando nessa relação seria a própria Apple, e não a cidade.

Quem manda mais?

Como é de se esperar, a influência da Apple sobre Cupertino é maior do que se imagina. É fácil de entender, agora, os motivos pelos quais a Apple é quem tem as cartas na mão nessa relação — tendo em vista a dependência econômica da cidade para com a empresa.

Mas também podemos entender o lado da companhia em continuar na cidade que, apesar de provê-la diversos benefícios fiscais, faz parte da sua história e do desenvolvimento da empresa como ela é hoje.

No fim das contas, é fácil de se imaginar que, apesar de as duas se beneficiarem dessa relação de mutualismo, certamente Cupertino necessita mais da Apple do que o contrário; se a Apple, por algum dilúvio, precisasse mover sua sede para um outro local, haveria uma fila de cidades se oferecendo para abrigar um campus seu — apesar de todos os pontos negativos envolvidos nisso, explicados acima.

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