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Sopa de letrinhas: APIs podem ser a chave do sucesso das IAs da Apple

Divulgação/Apple

Pela proximidade da WWDC24, é possível que você esteja lendo esta coluna alguns dias após o evento, e que já tenhamos as respostas para a maioria das questões levantadas a seguir. Mas isso não torna o assunto menos importante: inteligência artificial (IA) e APIs 1Application programming interface, ou interface de programação de aplicações..

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Para quem já ouviu falar de APIs, mas não sabe exatamente o que isso significa, elas são basicamente pacotes prontos que os desenvolvedores podem implementar nos códigos dos seus apps, para tirar proveito de algo oferecido por um sistema ou por uma plataforma. O Apple Pay, por exemplo, é implementado em apps por meio de uma API. Mesma coisa para integração com Game Center, Mapas, iCloud e assim por diante.

Quando o assunto é IA e, especialmente, as novidades que a Apple deverá apresentar para seus sistemas a partir de segunda-feira (10/6), existe uma questão que ainda não foi muito explorada ou vazada: até que ponto ela permitirá que os desenvolvedores incorporem essas novidades nativas em seus próprios apps?

Digo isso porque, desde que surgiu o SDK 2Software development kit, ou kit de desenvolvimento de software. de apps para o iPhone, muitos desenvolvedores se incomodam com a quantidade de APIs que a Apple cria exclusivamente para uso próprio. São as chamadas APIs privadas, como a de acesso ao NFC 3Near field communication, ou comunicação por campo de proximidade. do iPhone para pagamentos por aproximação, as relacionadas ao controle de atividades em segundo plano de apps, ou então a que lida com chamadas telefônicas.

Do lado da Apple, ela diz que mantém algumas APIs privadas por questões de segurança e privacidade. Do lado dos desenvolvedores, eles dizem que esse nem sempre é o caso, e que ela costuma usar esses argumentos como desculpa para justificar práticas anticompetitivas 4Este, inclusive, é o mesmo argumento que o Departamento de Justiça (DoJ) dos Estados Unidos está usando em um processo aberto recentemente contra a Apple que, como eu explorei há algumas semanas, não deverá dar em nada..

IA entra na sala

Com a provável chegada de múltiplas funcionalidades de IA no sistema, os desenvolvedores vêm se perguntando qual será a amplitude do acesso (se é que algum) que eles terão a essas novidades. E a dúvida é justificada, já que qualquer função de IA nativa do sistema liberada na forma de uma API poderia elevar bastante a utilidade de pequenos apps com menos recursos à disposição.

Por exemplo: se o iOS realmente ganhar um modelo de IA que faça transcrição de gravações de áudio, será que desenvolvedores independentes que ofereçam gravação em seus próprios apps poderão adotar esse modelo por meio de uma API? Ou, se o Pages para Mac ganhar uma IA generativa, será que o Ulysses para Mac poderá acessar essas APIs para implementar tais funções no app 5Spoiler: provavelmente não.?

“Ah, mas a Apple não é uma caridade e não tem que fazer a lição de casa dos outros. Cada um com os seus problemas.” Justo. Míope, mas justo.

Pense o seguinte: sem acesso à API de GPS 6Global positioning system, ou sistema de posicionamento global., plataformas como o iFood e a Uber possivelmente não existiriam nos moldes (ou com o alcance) que vemos hoje em dia. Sem acesso à API do acelerômetro, nós provavelmente não teríamos uma fração dos jogos divertidos disponíveis na App Store (e que geram mais comissões à Apple do que qualquer outro segmento), ou de funcionalidades de acompanhamento de exercícios. Outro exemplo: sem acesso à API do Bluetooth, bem… imagine o inferno que seria.

YouTube video
Nada a ver com o assunto, mas esse raciocínio me fez lembrar desse excelente vídeo do canal Squirrel Monkey, que reimagina como apps e serviços modernos teriam sido na era do começo dos PCs.

E a questão do acesso a essas APIs não se limita aos modelos locais, ou seja, aqueles que rodarão diretamente no iPhone, sem a necessidade de se conectar à internet ou a serviços externos. Será que a Apple permitirá que os desenvolvedores incorporem nativamente em seus apps as possibilidades oferecidas ao sistema por uma eventual integração com a OpenAI 7Spoiler: provavelmente não.?

É bem verdade que a OpenAI e suas concorrentes já oferecem as próprias APIs que permitem a implementação de funções de IA em aplicativos. Mas isso não se compara ao potencial de poder acessar essa integração nativa, diretamente pela camada do sistema, com todos os ajustes já feitos pelas próprias empresas para otimizar essa experiência.

Eu tenho, você não tem!

Nos últimos dias, Mark Gurman disse que a Siri deverá ganhar a habilidade de executar comandos dentro de apps (algo que eu explorei aqui em abril), mas afirmou que isso será limitado inicialmente apenas aos apps da própria Apple.

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Obviamente, a palavra inicialmente é a peça central de toda essa questão. Se a decisão for resultado da intenção da Apple de garantir o bom funcionamento do modelo antes de liberá-lo para os desenvolvedores, maravilha. Mas se a limitação perdurar por mais tempo do que isso, poderemos cair no mesmo problema do resto das APIs privadas atuais.

Um ingrediente interessante em todo esse bololô é a questão regulatória. Seja na Europa, nos Estados Unidos ou em outras regiões, a Apple vem enfrentando investigações e pressões cada vez mais intensas para justificar (ou eliminar à força) algumas das limitações que ela historicamente impôs sobre o mercado desenvolvedor.

A própria API privada de uso do NFC citada anteriormente, por exemplo, acaba de ser aberta na marra na Europa. Já a API da função Tempo de Uso, disponibilizada publicamente apenas em 2021, deu origem a inúmeros ótimos apps de controle de tempo de tela com funcionalidades muito mais avançadas do que o recurso nativo. Alguns desses, inclusive, são usados como acessório de segurança, já que têm a habilidade de esconder completamente apps específicos, algo inexistente atualmente de forma nativa no iOS.

Não seria algo exatamente inédito, mas se as funções de IA apresentadas na WWDC24 provarem-se apenas um desfile de funcionalidades nativas e sem acesso por parte dos desenvolvedores, especialmente sendo fruto de acordos exclusivos com a OpenAI, com o Google ou com quem quer que seja, não deverá tardar até que novos processos sejam abertos sobre isso também.

Digo isso porque na última quarta-feira (5/6), o Departamento de Justiça e a Comissão Federal de Comércio dos EUA anunciaram uma investigação conjunta sobre a NVIDIA, a OpenAI e a Microsoft, envolvendo práticas anticompetitivas no mercado de inteligência artificial. Portanto, os órgãos reguladores definitivamente já estão atentos a esse assunto no mundo da IA, e certamente assistirão à abertura da WWDC24 com a mesma atenção que o resto de nós, ainda que por motivos bem diferentes.

Resumo da ópera

A Apple não tem um histórico muito positivo de agir proativamente na liberação de funcionalidades nativas que agem como um diferencial do iPhone. E digo diferencial tanto em relação ao Android quanto a apps de terceiros que concorrem com os apps nativos do próprio iOS. E isso é um direito dela, até que a lei determine o contrário.

Por isso, minha expectativa é que, no máximo, apenas uma parcela pequena das possíveis novidades de IA do iOS 18 e do macOS 15 (ajuda na escrita e na triagem de emails, emojis generativos, uma Siri mais eficiente, resumo de artigos e navegação assistida no Safari, edição inteligente de imagens 8E, talvez, até mesmo por meio de prompts., sumarização de mensagens e de notificações, anotações com IA generativa, transcrição e resumos de gravações de voz, geração avançada de playlists no Apple Music, sugestão avançada de respostas para mensagens… e por aí vai) seja disponibilizada inicialmente aos desenvolvedores. E mesmo assim, talvez não na forma de APIs, mas sim de extensões do sistema sob a chancela (válida) da preservação da privacidade dos usuários.

Se isso se comprovar, será uma pena. Primeiro, porque oferecer acesso às APIs que dariam superpoderes aos quase 2 milhões de apps disponíveis na App Store seria uma forma gigantesca de diferenciar o iPhone da concorrência, especialmente neste momento crítico em que a impressão praticamente unânime é de que a Apple ficou para trás no mundo da IA.

Em segundo lugar, porque isso inevitavelmente aceleraria a evolução de todo o mercado de ferramentas de IA. Nós já cansamos de ver os desenvolvedores fazerem milagres a partir de pequenas frestas abertas pela Apple, incluindo o app Workflow que posteriormente foi comprado pela própria empresa e se transformou no atual Atalhos (Shortcuts). Ao oferecer APIs para que os desenvolvedores tirem proveito do poder oferecido pelas mesmas IAs que equiparão o iOS, não tenho dúvidas de que todo o mercado poderia evoluir mais rápido do que os 50 anos em 5 de JK, mas sem desmatamento, endividamento e inflação.

Por fim, isso beneficiaria a própria Apple. Eu sinceramente não tenho confiança de que a empresa poderá recuperar sozinha o tempo perdido do último ano. Muitos veem na IA apenas um hype sem muita justificativa, e a culpa não é dessas pessoas. Para muitos, a IA (e especialmente a IA generativa) ainda é um conceito distante e meio amorfo, sem utilidade prática. Ao facilitar a entrega dos benefícios da IA por meio de apps de terceiros que as pessoas já usam, a Apple poderia fazer o que ela mais gosta: se gabar do fato de o iPhone ter mais uma vez sido essencial para catapultar seus usuários para a próxima grande era da tecnologia, e seguir enchendo os bolsos com comissões.

Notas de rodapé

  • 1
    Application programming interface, ou interface de programação de aplicações.
  • 2
    Software development kit, ou kit de desenvolvimento de software.
  • 3
    Near field communication, ou comunicação por campo de proximidade.
  • 4
    Este, inclusive, é o mesmo argumento que o Departamento de Justiça (DoJ) dos Estados Unidos está usando em um processo aberto recentemente contra a Apple que, como eu explorei há algumas semanas, não deverá dar em nada.
  • 5
    Spoiler: provavelmente não.
  • 6
    Global positioning system, ou sistema de posicionamento global.
  • 7
    Spoiler: provavelmente não.
  • 8
    E, talvez, até mesmo por meio de prompts.

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