
Cesar Scavone
Webdesigner, profissional de tecnologia e usuário Apple desde o primeiro iPhone.
Desde que Steve Jobs apresentou o primeiro iPad, a ideia de um dispositivo que combinasse a portabilidade de um smartphone com a produtividade de um laptop soou, para muitos, revolucionária. Na keynote de lançamento, Jobs o posicionou como um “filho do meio” entre o iPhone e o Mac. Mas havia um detalhe que dizia muito sobre sua visão: logo após pegá-lo, ele se acomodou em uma poltrona Le Corbusier LC3.
Mais do que um detalhe estético, o gesto mostrava a intenção de Jobs. O iPad não era apenas mais um computador. Ele queria que fosse um dispositivo do dia a dia, algo que substituísse o jornal, a revista, o bloco de notas ou o livro. Um dispositivo para ser usado longe da mesa de trabalho, mas também com mais conforto e imersão do que uma tela de smartphone.
De “iPhone grande” a quase-Mac
Sou usuário de iPad desde o primeiro modelo. Talvez tenha sido um dos primeiros no Brasil a ter um, recebendo-o junto com Aleksandar Mandic — pioneiro da internet no país — no dia seguinte ao lançamento nos EUA. Ainda o guardo na caixa.
No início, o iPad era um dispositivo basicamente de consumo de conteúdo, servindo em ambiente corporativo como um caderno de anotações e pautas de reunião, uma forma mais simples de mostrar uma apresentação ou, no máximo, mandar emails. Era, de fato, um coadjuvante no trabalho.
De lá para cá, acompanhei de perto a transformação do iPad: de um device voltado quase exclusivamente para consumo de conteúdo a um equipamento principal de trabalho para designers, ilustradores, executivos de vendas, marketing e muito mais. O que antes era apenas um “iPhone grande” com chip A4, hoje passa a ser um “quase-Mac” com o chip M4 esbanjando potência, com suporte a monitores externos, teclados, mouses e multitarefa avançada — tudo sem perder a portabilidade.
Do escritório à poltrona
O iPad permite cenários híbridos que antes pareciam improváveis. É possível “docká-lo” na mesa de trabalho e realizar praticamente todas as tarefas profissionais. E, no fim do dia, desconectá-lo para sentar-se em uma poltrona com um café, navegar por notícias, assistir a um streaming ou ler um ebook, enquanto se escuta uma playlist de jazz e se anotam ideias para o dia seguinte.
No meu caso, sou webdesigner em uma empresa brasileira, com sede em outros países. O iPad Air (M3) se tornou meu principal dispositivo para os dias de trabalho presencial, graças ao seu poder de processamento e à capacidade de trabalhar diretamente com periféricos. Com ele, eu desenvolvo para a web com facilidade e ainda consigo ilustrar e manipular imagens como se estivesse no Mac.
Não bastando a utilização no trabalho, em casa o iPad é o dispositivo que controla as playlists no sistema de som, onde eu leio, estudo e ainda me comunico.
Essa flexibilidade é o que mantém o iPad relevante no ecossistema Apple — a possibilidade de, em um mesmo dispositivo, trabalhar de verdade e consumir conteúdo, sem ficar preso a uma mesa ou mesmo ter um teclado acoplado quando não precisamos dele.
Steve Jobs e o iPad
Quem leu a biografia de Steve Jobs por Walter Isaacson percebeu quanta expectativa o iPad gerava no fundador da Apple. Desde o início, na garagem em Los Altos, Califórnia, Jobs tinha uma ideia fixa em mente: fazer do computador algo que fosse acessível a todos.
Durante o desenvolvimento do iPad, Jobs passava horas manipulando mockups, aperfeiçoando e trabalhando de perto com a equipe de desenvolvimento. Com o lançamento, Jobs colocou a poltrona no palco para mostrar que o iPad não era um dispositivo para ser usado apenas no trabalho… a ideia era que ele fizesse parte da vida do usuário, mesmo em seus momentos de descanso e descontração.
O iPad materializou isso de tal maneira, que Michael Noer, da Forbes, estava lendo um livro em Bogotá quando percebeu um garoto de 6 anos observando o que ele fazia. Curioso, Noer entregou o iPad na mão do menino, que limpava currais, e ele sem nenhuma instrução ou conhecimento, começou a utilizar sem nenhuma instrução prévia. Jobs concluiu, com este caso; “Se isso não é mágico, então não sei o que é.”
iPadOS 26 e o futuro
Com a chegada do iPadOS 26, a Apple dá mais um passo para aproximar a experiência do iPad à do Mac. O Organizador Visual (Stage Manager) estará mais refinado, a multitarefa ganhará mais recursos e a integração com monitores externos ficará ainda mais natural. É uma clara tentativa de ampliar o uso profissional, sem abrir mão do lado pessoal.
Mas, afinal, isso significa que o iPad está “matando” o Mac? Não. Os dois têm propósitos distintos. O iPad carrega a essência do primeiro Macintosh: um computador para o usuário comum, intuitivo, amigável e versátil. E, para mim, o dispositivo que melhor traduz a ideia original de Steve Jobs de colocar tecnologia avançada nas mãos de qualquer pessoa — do escritório à poltrona de casa.

